segunda-feira, 25 de julho de 2016

Aurora

Enquanto saia do templo, uma sensação de felicidade lhe invadia.

Esse não era o plano original. Lembrou do sorriso no rosto dele no dia em que se conheceram, mas nunca imaginou que aquele homem tão maravilhoso e atencioso, poderia se tornar seu pior inimigo. Queria apagar da sua vida aquela convivência de cinco anos, só queria esquecer. Talvez aquela grande quantidade de cicatrizes passariam despercebidas, e ela pudesse ser alguém novamente.

Com o corpo e a alma cheios de dor, depois de mais uma surra de cinco horas, consegue escapar com a filha para a casa de uma amiga. Antes, com ajuda de amigos, arruma um emprego em outro estado, passagens e coragem. Em seu último dia na cidade, depois de alguns meses escondida, decidiu ir encontrar o criador e agradecer a oportunidade de renascer. Deus era bom com ela.

Porém ao atravessar a rua, saindo da igreja, vê todos os seus novos sonhos desabarem.

Ele estava ali.


O medo aumentou consideravelmente, quando reluzindo a luz do sol, a pistola automática é destravada. A multidão se afasta, e muitos correm, mas ela continua ali. Ele começa a falar.


- Então você achou mesmo que ia fugir de mim, vadia? Achou mesmo que ia escapar levando minha filha? Você nunca prestou para nada, e agora faz isso comigo, por causa de algumas discussões? Eu vou dizer para você, para onde você vai agora vadia... você vai para o inferno!


Ela fecha os olhos. Pensou no futuro da menina, na tristeza da mãe ao saber daquela notícia futura. Não conseguia mais chorar, não tinha mais lágrimas. Talvez a felicidade seja algo que apenas alguns merecem, e que isso não tem nada a ver com bondade ou caráter. Se algum Deus existe, ele decidiu que ela não era importante. Bastava aceitar. Levanta o pescoço, olha ao redor, e espera... talvez fosse rápido, e diferente das surras, o momento de dor seria breve.

Mas algo de inesperado acontece e a multidão desenfreada, vai para cima do homem.

Um tumulto generalizado se instala no local e alguns tiros são dados para cima, mas ninguém é ferido. Logo, alguns homens que saiam do templo, imobilizam seu antigo companheiro. O povo começa uma série de agressões que é interrompida por um advogado, que disse que o sujeito poderia usar o fato para se livrar e que o melhor era chamar a polícia e esperar. Todos acatam.

A viatura chega ao local, e o homem é detido. Ela pede ao policial um instante.

Abre a bolsa e pega uma aliança. Coloca no bolso da camisa daquele ser humano que um dia amou. Virando as costas, retornou ao templo. Precisava agradecer o criador, pois além de ir embora, agora sabia que estava segura.


Deus era bom com ela. Ela também merecia ser feliz.

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Saudosismo canceriano.


No meio da noite me levantei para ir no banheiro. Minha filha aproveitou e me pediu algo pra beber. Assim que ela tomou seu chocolate quente, ambos nos deitamos, mas enquanto ela dormia, eu permaneci acordado. Era estranho acordar e perder o sono, visto o cansaço que eu estava por causa desses últimos dias de trabalho. Enquanto uns tomam leite, contam carneiros, ou vão ler algo chato, meu método para driblar a insónia consiste em pensar e enumerar coisas do passado. Uma mania minha, coisa de canceriano.

Primeiro penso nos relacionamentos. Lembro o ano e uma música que marcou aquela fase, e relembro os acontecimentos da época. Faço uma reflexão de quem eu era e quem sou hoje, e vejo como eu mudei, tanto na forma de pensar como a de agir. Acho interessante perceber nossa vida dessa maneira, como se fosse um seriado, com várias temporadas, porém se ver como um personagem de um longa, que nunca acaba.

O fato importante desses momentos de reflexão e que precisa ser constantemente lembrado, é a ideia de que cada pessoa que passa pela sua vida te ensina algo. Para mim essas lições, em forma de vivência, são a soma de uma equação, que resultaram no que eu sou hoje. Penso também nos amigos, nos empregos, nas viagens. Enumero tudo e penso logo em uma música para cada fase daquilo também. Eu sou uma pessoa que relaciona música como se fosse um marcador de página.

O sono ainda não tinha chegado, mas com todas essas lembranças apareceu uma percepção bacana:
Eu estou feliz.

Feliz porque acho que vivi o que tinha de viver. Porque consigo rir de mim quando lembro de alguma besteira que eu fiz. Feliz porque quando tive uma tristeza, valorizei algo importante. Feliz por que cada trabalho que eu tive, eu aprendi. Feliz porque encontrei uma coisa que nem todo mundo acha na vida, uma mulher que me completa. Uma amiga e uma amante. Alguém para acompanhar até o fim. E feliz porque temos agora uma extensão da nossa vida, em forma de sorrisos e travessuras. Um furacão de dois anos que destrói as casas por dentro, um objetivo de vida chamado Sophia. Estou feliz principalmente porque consigo pensar nisso em uma noite de insónia, em um período de duas horas, e saber que tem gente que passa uma vida inteira sem descobrir isso.

São quase quatro da matina e começo a bocejar. Fico com medo de levantar, pegar uma coisa pra comer e perder o sono novamente. Mesmo com fome me viro pra dormir. De qualquer maneira vou ter de começar um regime mesmo, porque todas essas vivências, além de reflexões, me trouxeram uns quilos a mais. Acho que todos os que escrevem tem uma certa dificuldade para acabar textos. Só posso dizer que naquela noite de insónia, eu acabei dormindo.

Feliz é claro.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

O monge e o coletivo


Depois de um dia de trabalho super cansativo, tudo que eu queria era chegar o mais rápido possível na minha casa. Como o carro estava em manutenção, peguei o busão que passava naquele determinado horário, e embarquei sentido o bairro em que morava, porque graças a Deus, tinha concluído todos os trabalhos da faculdade.

Assim que entrei no coletivo, vi uma galera rindo e apontando para um tiozinho, que estava sentado em um daqueles bancos da frente onde ficam os idosos. Pouco tempo depois já tinha compreendido o motivo do alarde: aquele senhor estava com uma marmita destampada, comendo, no banco do ônibus.

Algumas pessoas, principalmente adolescentes, começaram a gritar do fundo, provocando o idoso com frases do tipo ”vai comer em casa” entre outras. Muitos riam da situação, como se aquele senhor fosse uma espécie de atração. Aquilo, de certa forma me incomodava, e a algumas outras pessoas que também estavam no coletivo. Por um instante achei que ia brigar com os estudantes que estavam caçoando. Tudo que eu pensava, era no constrangimento que aquele senhor passava, na vergonha que ele poderia sentir com aquelas ofensas.

Porém algo inusitado se mostrava com aquela situação. Apesar dos insultos, aquele senhor continuou comendo sua refeição, mastigando devagar, aparentando uma tranqüilidade fora do comum. Surdo ele não era, porque quando a tampa caiu uma senhora entregou e ele agradeceu o chamado. Eu estava observando uma pessoa com um alto nível de serenidade, dessas do tipo monge, que ficam horas e horas contemplando o nada.

O cara tinha fome, simplesmente abriu o pote que continha sua refeição e comeu, não se importando com nada além de sua necessidade básica, ignorando a opinião alheia, manifesta em forma de provocações. Uma capacidade mental incrível de se concentrar na sua ação, focando de modo completo, algo talvez impossível para uma pessoa como eu, tão acostumado com convenções e sugestões de outros. Isso me levou a reflexões profundas sobre agradar os outros, Sartre e solipsismo. Geralmente projetarmos nos outros a nossa realização e aguardamos neles, sobre forma de aceitação, algo que amenize o vazio que nos habita. Não era o caso dele. Ao sair do ônibus, ainda dei uma última olhada e lá estava, sereno e tranquilo. Imaginei que tipo de formação ele teve, ou se através de seu próprio autoconhecimento chegou aquele nível de excelência emocional.

Naquele momento eu invejei o senhor da marmita. Fiquei e pensando se algum dia teria a capacidade incrível de ignorar a vontade do outro sobre minha vontade, daquela mesma maneira. Sinceramente, eu gostaria muito de chegar nesse nível.

Espero chegar.

quinta-feira, 28 de março de 2013

Arco-íris




Mais um dia nascia na metrópole. Naquela primeira hora matinal, as maquinas eram ativadas e supridas de combustível medido para suas tarefas cotidianas. Isso até seu próximo ponto de recarga, estipulado conforme suas operações.

Cada robô tinha seu próprio nome, número e função. Alguns eram mais sofisticados, outros simples. Todos trabalhavam conectados em prol de um único fim: manter o sistema vigente.

Eram a maior população do planeta.

Obedecendo as rotas estabelecidas via gps, muitos se acumulavam nos transportes coletivos. Para eles, tudo consistia em manter o padrão operacional: ativar, alimentar, funcionar, memorizar novas tarefas e retornar para recarga. Com o passar dos anos, novos protótipos são gerados e programadas por máquinas de sua geração anterior. Cecília era um modelo comum dos novos robôs. Como os outros, após terminar sua primeira recarga, se dirigiu ao orgão responsável por sua programação. 

Naquela manhã, detectou um fenômeno no céu, logo após uma chuva torrencial. Uma faixa de raios, com oito cores, que passava de um determinado ponto a outro. Como não absorveu aquele acontecimento como fato comum as suas percepções diárias, fez uma busca interna por informações para compreender a interação daquele acontecimento com o ambiente.

Ao registrar a imagem e levantar seu significado, chegou a seguinte definição: 

Arco-Iris: Fenômeno de refração da luz solar que possuí origens físicas e meteorológias, cujo formato se assemelha ao de um arco que emana luz. A refração da luz solar sobre as gotas de chuva ou nuvens, que estão dispersas na atmosfera, revelam as sete cores do especto solar.

Logo após a definição, notou que alguns circuítos de sua placa mãe sofreram algum tipo de alteração durante a pesquisa, causando uma pane. Dentro das leituras, uma pasta com imagens do mar, de crianças, famílias cantando, entre muitas outras, confunde ainda mais sua memória interna. Tremores e aumento de temperatura, ativam seu sistema emergencial de resfriamento. Agora inativa, não consegue manter um funcionamento adequado.

Diagnóstico: Emoção. Problema recorrente dos novos protótipos, cujo nível de inteligência e memória era superior as máquinas da geração anterior. Base do funcionamento orgânico dos primeiros projetos, que hoje eram consideradas obsoletos, pois atrapalhavam o sistema em suas operações. 

 Outros modelos, transitando pelo local,  percebem o mal funcionamento de Cecília e prestam manutenção, porém é inútil. Cecília não processa mais informação. Começa então a emitir ruídos. Ocorre um vazamento do líquido lubrificante ocular por sua interface. Já em colapso, a máquina tenta ainda um último recurso: Desativar plenamente o funcionamento geral dos circuitos, ocasionando sua queda entre os transeuntes.

Reiniciada as configurações e reativada, Cecília se levanta, agora já estabelecida e reprogramada. Segue indiferente para sua função diária, voltando então aos procedimentos comuns de operação:

Ativar, realimentar, funcionar, memorizar e retornar para recarga.

Mesmo com muitas panes relatadas, milhares desses robôs ainda conseguiam manter seu objetivo:

O funcionamento adequado do sistema vigente.

Isso, todos os dias de sua miserável existência.

Eram a maior população do planeta.





sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013



Quebrante





   E no meio da melancolia, se atirava em um papel, impulsionado por uma caneta simples, das menos sofisticadas. Enquanto escrevia, sentia aquela sensação que não conseguia explicar as pessoas. Mesmo assim, escrevia. Terminado o texto, relia e corrigia, mudando frases.

   Agora, já não tão jovem, nem tão velho, se emocionava com pequenas coisas. A tarde, já entediado, pegava um livro indicado por um professor, usando como peso para os textos. Era do tipo de pessoa que torcia pelo perdedor...precisava escrever mais e ligar para aquela tia doente.

Mas era domingo.
Melhor dormir e pensar nisso depois.





terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Laika



Não me lembro direito em qual dia de Julho ela chegou, só me lembro da cara assustada, do medo estampado no focinho preto e de quanto ela tremia de nervoso no colo da minha mulher. Depois de várias discussões em torno de um nome que agradasse aos dois, decidimos chama-la de Laika.


O nome foi inspirado na  cadela russa que se tornou conhecida por ser o primeiro ser vivo terrestre a orbitar o planeta Terra. Ela foi lançada ao espaço a bordo da nave soviética Sputnik 2, em 3 de novembro de 1957, um mês depois do lançamento do satélite Sputnik 1, o primeiro objeto artificial a entrar em órbita. Laika é o nome russo para várias raças de cães similares ao husky, oriundas da Sibéria. A sua raça verdadeira é desconhecida, mas considera-se que ela teria sido um cruzamento entre um Husky ou outra raça nórdica com um Terrier, ou seja, era uma vira-lata, como a nossa era.

A enorme quantidade de carrapatos e pulgas, deixava claro que os donos anteriores dos pais da nossa cadelinha, não se preocupavam muito com a saúde dos cães. Um por um, tiramos todos os parasitas e  limpamos ela à seco. Nosso próximo passo era ir ao veterinário, para aplicar vacinas importantes. Laika começava a apresentar sinais de boa saúde, e foi ficando tão bonita a ponto de ser confundida com qualquer outro cão de raça. Seu pelo negro lembrava um azul escuro de tão brilhante.

Com seus dois meses em casa, começou a destruir os móveis, e a defecar em lugares em que a Ana não gostava de ver sujos, o que gerou uns probleminhas. Mesmo assim, com o carisma legítimo dos vira-latas, nos conquistou, e passamos a ignorar algumas coisas em nome do novo laço que criamos, um laço tão forte e poderoso, que chega a ser difícil de explicar. Quando eu estava em casa, ela ficava no meu pé, tanto no PC quanto no sofá e chegava até a  latir quando aparecia cachorros nos filmes. Quando a Ana estava em casa, ela era uma companheira, tanto na louça, como nos livros de fisioterapia, fato que me ajudava bastante, pois minha mulher ficava muito tempo sozinha. Sempre que retornava para casa, tinha uma ótima recepção de nossa xodó magrela, e isso de certa forma, me trazia uma espécie de felicidade. Ter alguém ansioso pela sua chegada é uma coisa muito boa, e os cães fazem isso como nenhum outro animal faz.

Foi quando no mês de Dezembro, por um descuido, não vimos ela pular o cercado que colocamos no quintal, e, para piorar nosso azar, os vizinhos tinham deixado o portão do condomínio aberto. Laika escapou, deixando tanto eu como minha mulher muito aflitos. Procuramos em todos os arredores do nosso bairro, e também um pouco mais distante. Nossa maior preocupação era se ela fosse atropelada, machucada ou mordida por algum outro cão na rua. Era véspera de natal, e os fogos com certeza a espantariam cada vez para mais longe, dificultando nossa busca.

Passaram quatro dias e Ana chorava muito. Eu não conseguia me concentrar no trabalho. Fizemos cartazes e colocamos recompensa para quem a encontra-se. Entramos em contato com Ongs e entidades especializadas em cachorros desaparecidos, que aliás, fazem um trabalho bonito e importante. Notamos que isso acontece com muita frequência, muitas pessoas perdem seus cães no mês de Dezembro.

 Chegamos até a pensar em um carro de som para ajudar. Cinco dias se passaram e nenhuma notícia de nossa mascote. Começamos a perder a esperança.

Comecei a juntar os pertences da Laika em uma caixa, e guardar. Toda vez que notava a bolinha ou as tigelas rosas que Ana tinha comprado, um vazio, um aperto, uma angústia nos desconsolava. Era uma tristeza insuportável, e, posso dizer que o natal de 2012, foi uma bosta por causa disso. Tentava fazer minha mulher se distrair, mas percebi que ela se apegara tanto quanto eu. Um animal de estimação, é como um parente, e quando ele se vai, sentimos igual ou até pior, o sentimento de perda por parentes ou amigos. Desculpe se isso ofende alguém, mas pelo menos comigo, funciona assim.

Fui trabalhar, e no caminho conversava com Deus a respeito de perda. Pedi com todas as minha forças e fiz um voto de uma visita a certo local, caso Laika aparecesse. Nesse mesmo dia, três horas depois, Ana me liga dizendo:

-Vi ela tá aqui comigo...foi encontrada

Foi achada em um vizinho bem próximo, que cuidou dela muito bem desde o dia de seu desaparecimento, mas que por distração ou qualquer outra coisa não viu os cartazes, ou não ficou sabendo. Estava muito bem cuidada, apenas assustada com os fogos de artifício. Foi uma felicidade, um alívio, algo que não conseguimos descrever. Trabalhei ansioso por chegar em casa e ver minha cachorrinha. Quando cheguei, ela me reconheceu de imediato, e, soltando gemidos, algo como um choro, me lambia sem parar. Nosso ano novo estava salvo. Fizemos uma festa. Agradecemos e pagamos a recompensa. Nada de valor pode pagar pela sua companhia, não sentimos um pingo de remorso. Foi a melhor coisa que poderia ter acontecido.

 Não sei explicar se foi algo relacionado ao pedido que fiz, não sei realmente se minha fé tem a ver com o fato dela aparecer, mas prefiro acreditar que sim, e começo a entender porque é melhor acreditar, do que ser um descrente. Até o fim deste mês, cumpro meu voto como estabelecido. Gostaria de agradecer a todos os amigos que se comoveram no facebook, deixando mensagens de conforto e paz tanto para mim quanto para minha mulher. Ajuda bastante.

Também gostaria de agradecer aos grupos "Amigos de Fabiano Jacob" que cuidam de animais que são molestados e também dão informações sobre animais desaparecidos. Outro grupo importante é o CZZ (Osasco) que também é referência nesse tipo de assunto. Ambos nos ajudaram, e ajudam muitas pessoas que perderam seus companheiros de coleira. Encerro essa postagem com minha amigona no meu pé. Ela está do lado de PC, cochilando com o fucinho no modem, esperando um vacilo meu pra que eu fique sem internet. Sendo assim, vou enganar essa raposinha com um snack canino pra ver se ela sai dali. Senão, posso acabar demorarando para postar de novo.

Um abraço galera, até a próxima postagem.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

Sobre meu inimigo.



                                                      (Foto: Divulgação Internet)


Ao fazer meus oito anos, lembro que minha avó tinha me dado uma lancheira do Batman. E eu estava muito feliz com aquela lancheira. Porém, ao chegar na escola, César Augusto, um garoto um pouco mais velho, alto e forte, não só a tomou, como comeu o meu lanche. Com uma ameaça em tom baixo, ele sempre terminava o dia:

- Se contar para alguém, coloco sua fuça pra dentro.

E foi assim, que minha lancheira do Batman se foi. Ao chegar em casa, apanhei um pouco mais da velha, por ter dito perder o presente. Não tinha coragem de dizer que fui tomado, porque isso era mais vergonha ainda.

César Augusto, era a primeira pessoa da qual me lembro sentir ódio mortal, daqueles de desejar que a pessoa exploda,como em um desenho animado, ou seja, tinha ele como meu primeiro grande inimigo.

Alguns anos depois, ao entrar no meu primeiro emprego registrado,como office-boy de uma empresa de contabilidade, os outros boys se incomodavam com minha dedicação ao aprender as coisas com meu supervisor. Lembro de arquivos importantes que ficavam em minha responsabilidade, que simplesmente desapareciam dos malotes da empresa, sem justificativa nenhuma. Lógico que meu chefe não queria saber, e mesmo com toda minha dedicação ao trabalho, fui desligado. Tarde demais para perceber. Eu também tinha inimigos no trabalho.

Com a turma da adolescência vivíamos experiências bacanas, saiamos muito, e nos divertíamos. Era uma galera bem Rock and Roll. Tinha a Erica, que era uma graça, e eu estava loucamente afim. Só contei para um amigo, o Eduardo. Gente boa, amigão.

Um dia notei que ela mal me reparava,apesar de nossa aproximação, e ao perguntar para outra amiga, fiquei sabendo que depois de uma conversa que ela teve com o Eduardo, que não queria nem saber mais de olhar para minha cara. Até hoje não sei exatamente o que ele disse para ela, mas sei que depois de dois meses, eles estavam juntos. Descobri então um novo tipo de inimigo, talvez um dos piores...o amigo falso.

Ao terminar meu curso de radiologia, tinha de entregar os documentos para o orgão fiscalizador até o dia 18 de Setembro, e estaria empregado na empresa de um amigo até janeiro. Isso não era um problema, o problema era saber disso no dia 17, as 18:00 horas, em decorrência do atraso dos correios por conta de uma greve. No dia seguinte faltei ao emprego e corri atrás da papelada mas estava gripado, e muito doente.

Ao sair naquele dia, apesar do Sol que fazia, no fim da tarde veio uma chuva, que não só molhou os documentos, mas atrasou o trânsito em São Paulo, fazendo que eu não chegasse em tempo.

Resultado; tive de esperar o recesso de fim de ano do CRTR e pegar a minha habilitação de Tecnólogo seis meses depois, isso claro, perdendo a chance de trabalhar na ótima clínica indicada por um colega. Ainda tomei advertência no trabalho por ter faltado. O tempo e o espaço também eram inimigos. Era como se uma força maligna sobrenatural agisse, para que eu não conquistasse meus objetivos, sempre presente entre pessoas e coisas.

Todas as grandes religiões do planeta, tem relatos sobre o que seria em síntese um inimigo.
O significado de "inimigo" no dicionário seria: Que odeia alguém, que procura prejudicá-lo.
Também nas religiões, onde geralmente são procurados, eles tem vários nomes: No judaísmo ele se chama Heilel Ben-Shahar, no cristianismo é conhecido como Lúcifer, no islã, Iblis e no budismo Mara.

Quando a zica chegava em alto nível, sempre tentei prevenir ou remediar os ataques deste suposto inimigo, em suas formas sobrenaturais ou físicas. Simpatias, auto-flagelações, orações e ofertas de donativos para templos que lutam com os oponentes para você, ou fingem que lutam para ganhar sua grana. Ou seja alguns dos quais você pode procurar para acabar com os seus supostos inimigos, podem se tornar outros inimigos. E com tantos fracassos e problemas, resolvi parar de lutar ou tentar me esquivar, e com a maturidade cheguei a outra importante reflexão:  Devia aprender de forma racional a enxergar o verdadeiro oponente que me afligia.

Foi ai que entendi que César augusto não era meu inimigo, era só uma criança sem amigos, isolada que ficava no canto da quadra, querendo atenção. Os Boys da empresa de contabilidade não eram malignos como eu pensava, eram apenas garotos frustrados por não terem tantas oportunidades como eu tive na época. Eduardo, era um cara apaixonado por uma garota, que lutou com mais garra que eu pelo que queria. Não existia essa de chover quando eu saia, não procurei os documentos quando eles chegaram atrasados, apenas reclamei quando chegaram. Sendo assim,o que era esse azar, esse inimigo que me rondava, já que todas as perguntas tinham sido reformuladas?

Era uma resposta muito simples, mas difícil de aceitar.
O problema era eu.

Ao ver o lado negativo das pessoas, em vez de tentar achar uma explicação cabível para algumas desavenças, acabava criando as situações incômodas. Ou seja, minha falta de atitude em ver que algumas coisas precisam de ação e não observação, só me faziam vacilar e colocar a culpa nos outros.

Ver a culpa nos outros é bem mais fácil. Muitos fazem isso, e quando dizemos que muitos fazem isso, não confessamos a nós mesmos, que parte de nossos fracassos e nossos problemas, tem origem apenas em nossas atitudes e nas nossas escolhas. Quando nos frustramos, e nossos planos não dão certo, o alvo passa a ser as pessoas ao redor.O inferno são os outros, pensamos. Mas esse é um pensamento equivocado.

Então, passei a fazer um exercício. Quando penso rapidamente que tal pessoa quer me prejudicar, reflito de verdade, sempre me perguntando se não houve apenas um mal entendido. Não penso mais em situações que dão errado, não culpo o tempo, o vento a globo ou o governo, sei que sou o único responsável pela minha vida e tento não esquecer desse fato. Hoje não carrego patuás da sorte como já carreguei, nem crucifixo.

 Não acredito mais na tal primeira impressão. Penso que todo dia é dia de remediar, de tomar as rédeas, de tentar de novo. Acredito no erro como professor, como meio de aprendizado. Então se você que lê esse texto agora, já me teve como inimigo, tem a oportunidade extraordinária de arrumar um amigo novo. Convido  a todos os outros que também puderam ler, a tentar uma reaproximação de pessoas que um dia foram queridas e hoje estão distantes, deixando outra pergunta:

Porque não?


Um abraço e até a próxima postagem.

sábado, 31 de março de 2012

Praça Por do Sol

A praça estava cheia, era 05:38 da manhã, quando ele tentou novamente. Aproximou-se devagar, e, vencendo sua timidez, tocou levemente sua mão. Ela esquivou, cruzou os braços, olhou para ele e deu um sorriso sem graça. O Sol começou a aparecer e as pessoas que trabalhavam na região de Pinheiros, paravam para assistir. Era lindo, por isso o nome da praça era Por do Sol.

                                                                                (Foto: Valéria Gonçalves)

Depois de uma noite regada a Rock and Roll, eles estavam exaustos. Já fazia um ano que saiam, sempre como amigos. Ele sempre tentou, sabia que a amava e estaria disposto a esperar. Ela nunca teve dúvidas de seus sentimentos. Não sentia o mesmo afeto. Sempre com suas saídas estratégicas, conseguia enrolar, para não ficar com o amigo, que sempre tentou um relacionamento.

Certa vez, pensou se deveria ficar com ele, mas quando se olhava no espelho, pensava: mereço coisa melhor. Era jovem e bonita, e ele, um cara simples demais, sem muitas ambições, não era bonito suficiente, não o suficiente para que fosse seu namorado. Seria como um eterno amigo, só isso. Quem poderia julgar? Seria errado querer alguém melhor? 

Para ela não.

O tempo passou, já fazia um mês que ele não ligava. Na hora do almoço, saiu do serviço, pegou o celular:

- Oi você ta bem?

-To sim, to legal, e você? – Ele disse

Conversaram um pouco e logo ele desligou. Agora que ela sabia que tudo estava bem, ouvindo sua voz por um instante, continuou com sua vida. Sem ele por perto as baladas eram mais divertidas. Conhecia uns caras interessantes, bonitos, sarados e estabelecidos. Dormia com um, com outro, ignorando o fato de serem horríveis de cama, ou estúpidos. O importante é que todos os homens que passaram por ela naquele período eram semelhantes. Pessoas com quem ela sempre sonhou se envolver.

 Mas todos fugiam antes de chegar o café do hotel, e, ignoravam as ligações no dia seguinte. Havia uma certa mágoa naqueles momentos, mas para ela tudo bem. Tem alguém legal me esperando por ai – ela pensava.

Com os dias passando, sentiu falta dele novamente. Marcou uma balada, estava com saudades da companhia. Precisava se sentir desejada, querida:

-Você vem amanhã?

- Vou...Posso levar uma pessoa?

- Ótimo, pode trazer.

Talvez um amigo, ela pensava. Ele deve ter falado dela. Se fosse bonito e legal, porque não?

As 22:30 se encontraram na Augusta. 
Ele chegou, com uma menina. 

Ela sentiu uma coisa ruim, mas tentou não demonstrar. Esperava por um amigo e de repente, se viu perturbada com aquela garota. Conversavam bastante apesar disso. Ela era professora, e se mostrava bastante receptiva. Ele já não olhava para ela como antes, mas para a menina, tudo era um sorriso. Tentou não pensar nisso. 

Foram para a praça. As pessoas procuravam um lugar para sentar, alguns com cervejas, outros com algo a mais, ninguém se incomodava. Então eles ficaram a uma distância razoável do local onde ela estava:

- Licença um pouco anjo, vou ali com ela e já volto ok?

- Fiquem a vontade!

E assim foi. Ela os observava de longe, mas não se deixava perceber. 
Ele se aproximou da garota, pegando na mão dela. Ela correspondeu e logo se beijaram. Ali naquele local, se deu conta de quanto gostava do cara simples sem ambição. 

Porque algumas mulheres são tão idiotas - ela pensava.

Há pouco tempo atrás, naquele mesmo local, poderia estar ali, sentindo o amor de um homem que estava pronto para aceitá-la. Sentiu vontade de chorar, mas se refez. Depois do nascer do sol, decidiram ir embora. Antes de se despedir, ele a abraçou. Ela sentiu a ternura de um amigo. Apenas um amigo, como ela sempre desejou.

Ao chegar em casa, revia todas as fotos que tinha com ele, sabendo que depois daquele dia, seria difícil ver outra foto nova dos dois juntos. Talvez devesse ligar e dizer o quanto gostava, o quanto estava arrependida, mas logo desistiu.

Quando foi tomar um banho, olhou no espelho e lembrou de um fato. 

Era jovem e bonita. Merecia coisa melhor...

Merecia.









quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Crise da Meia Idade


Se olhar no espelho de manhã, nunca foi uma coisa tão estranha. Penteando-me, pude ver um enorme e longo cabelo branco. O detalhe é que eu nunca havia tirado um só cabelo branco da minha cabeça. Talvez, seja essa a maior lembrança do meu aniversário de 30 anos.

Passado alguns meses, uma menina de oito anos, filha de uma vizinha, pediu à bola que caiu por acidente no meu quintal:


- Tio, pega a bola para mim?

- Tio... Como assim “Tio”?

Tudo bem que às vezes exageramos ao errar a idade das pessoas, mas me chamar de tio?, Fiquei pensando se ela não tinha me enxergado direito, mas quando devolvi a bola, houve a confirmação:

- Brigadão Tio.

Quando tomava alguma coisa nos bares, comecei a notar algo, que até aquele momento, era absolutamente incomum para mim. Todo mundo estava tão colorido. Calças vermelhas e a galera com alguns tênis que pareciam infantis. Eu queria comentar com meus amigos, mas, os que eu tinha agora que voltei a estudar, se vestiam todos da mesma forma. Comecei a pensar se a velha camisa preta de roqueiro e meu All Star cano baixo estavam fora de moda. E se eu também estava fora da moda. Isso sem falar no maldito funk carioca, que todo mundo dizia gostar, menos o tiozão aqui.

Minha namorada dizia, que eu me preocupava demais com a minha idade, mas eu percebia que os caras que mexiam com ela, tinham 10 anos a menos que eu. Ela de forma alguma, diria que sou velho demais para ela. Quando eu procurava um estágio, ou prestava um concurso, um dos critérios que mais lia era “até 24 anos”. Ao abrir o álbum de fotos de colegas do primario, percebi que quase todos os meus amigos, já tinham filhos e aparentavam ser bem mais velhos. Isso não me deixava aliviado, pois o fantasma da menininha da bola morava a três casas da minha e sempre me lembrava, que perspectiva é uma coisa individual.

Eu tinha uma casa própria, trabalhava e sempre buscava me aperfeiçoar profissionalmente. Mas ao mesmo tempo, assistia a animes, andava de skate, praticava Swordplay e me acabava nas baladas de sexta. Será que estava na hora de começar a refletir sobre as mudanças e aceitar todos os sinais, que diziam que eu deveria mudar os hábitos, pois não era tão jovem, para continuar fazendo as mesmas coisas?

Deveria me enxergar naquele momento, como um “Homem de meia idade”?

Foi quando indo resolver um problema no fórum da João Mendes, conheci um cara de 23 anos chamado Marcel. Começamos a conversar sobre vários assuntos, mais a maioria deles, era sobre responsabilidade. Ele me mostrou uma agenda, onde marcava os horários para comer, para sair, para estudar e até quanto de bebida podia tomar até se embriagar. Marcel mostrou uma dieta que estava fazendo, onde não se podia comer nada de chocolate e carne vermelha.

Olhando seu terno de linho, quase teve um treco, quando viu um pedaço de lã vermelho na parte posterior do ombro. Tudo parecia tão controlado, tão certinho, que não resisti e perguntei:

- Cara, todo esse controle não te sufoca não?

E com cara de espanto, ele respondeu:
- Não... Sou responsável desde pequeno e sei que o não, é tão importante como o sim. Sou o orgulho da casa, o filho mais querido da minha mãe. Vejo bastante gente fazendo coisa errada e sei que alguns têm sorte de sobreviver. Organização é tudo na vida, concorda?

Concordei para não entrar em outro debate. Cinco minutos com aquele individuo, foi o bastante para perceber, o quanto eu estava sendo idiota comigo mesmo. Entendi que ser velho, era um estado de espírito, pois se um cara de 23 anos poderia ter o cérebro de um aposentado, um cara de 30 poderia fazer o que quisesse. Despedi-me de Marcel, e logo depois ao descer a primeira rua na volta, agradeci a Deus, por me mostrar que ninguém é maduro o bastante, para deixar de fazer o que gosta.

No dia seguinte, enquanto subia a ladeira de skate na mão, pude notar que as pessoas nem ligavam para o fato de um cara de 30 anos, ainda andar de skate. Às vezes nós perdemos muito tempo, tentando pensar no que a sociedade acha de nossos comportamentos e piramos nisso. Coloquei o fone de ouvido e comecei a ouvir “Dani Califórnia” do Red Hot Chili Peppers. Enquanto descia a ladeira, sentia o vento batendo no rosto e era uma sensação maravilhosa. Sabia que continuaria fazendo aquilo. Ainda assistiria muito anime, ainda dançaria muito Rock and Roll e andaria muito de skate, antes de me tornar um Marcel da vida. Todos esses pensamentos me vinham à mente, até eu me espatifar no corsa cinza estacionado no fim da rua.

Com um beiço inchado e um olho roxo, ninguém entendia porque eu ria do meu próprio tombo. As estatísticas diziam que os jovens, costumam ter muito mais acidentes que homens de meia idade.

É verdade. Eu estava ali para comprovar.

Até a próxima postagem.










terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

As Três Sensações

 São Paulo 15 de Fevereiro de 2012 – 11h45min h



Todos os dias quando chego ao escritório, a primeira coisa que eu sempre faço, é olhar para a mesa dela.
Era amedrontador imaginar que a presença daquela mulher me afetava tanto.

A coisa ficou mais complicada, quando que, por decreto da empresa, nossos departamentos estreitaram comunicações. E todo dia, ao levar os malditos relatórios de empreendimentos, manifestava aqueles sintomas.

Começava com o suor frio. Podia sentir a gota gelada descendo pela minha testa, caindo pelo meu rosto. Em seguida, um frio na barriga, algo incomodo, que não tem a ver com dor, mas com o simples receio de estar ali. As pernas começavam a tremer. Tudo que eu podia fazer, era entregar os papéis o mais rápido possível e dizer:

- Bom dia Cecília!

E durante oito meses, isso foi tudo que eu fiz.

Porém aquele dia era especial, tinha resolvido me declarar, e a chamar para sair. Tudo que eu tinha de fazer era caminhar em sua direção e dizer o que sentia de verdade. Sabia que tinha coragem suficiente para isso, e consegui me convencer. Se não me declarasse, me sentiria culpado simplesmente por não saber o resultado. Tinha de  tentar, e naquele mesmo dia.

 Depois do almoço, em um horário em que quase ninguém estava no local, olhei para a frente e lá estava ela, sozinha na maquina de café. Achando que essa foi a melhor oportunidade que poderia ter aparecido, começo a caminhar em sua direção. Coisas do passado começam a passar pela minha cabeça, como em um filme, coisas que não gosto de lembrar...


Cotia 28 de Fevereiro de 1994 – 09h35min h

Carol é a garota mais linda da sala. Assim foi decidido por votação por todos os meninos do terceiro ano, e por mim também. Todos os dias na hora do recreio, eu ficava observando aquela garota loira, imaginando se a gente poderia ver o por do Sol em cima do muro do terreno baldio, na rua do português. Depois eu pegaria em sua mão e a beijaria.

Decidi que depois do hino cantado no pátio, a convidaria para passear comigo. Eu gostava dela desde a segunda série. Enquanto imaginava as várias possibilidades, cheguei à conclusão que tinha de me declarar, mesmo se levasse um fora. No fundo eu não tinha nada a perder, e não saber era pior.

 Cheguei mais cedo, fui com a roupa mais bonita que eu tinha, ensaiei várias vezes. Achava-me preparado. Até o fim da tarde, meu coração dizia que estaríamos de mão dadas em cima do muro da rua do português.

Na hora do intervalo, apesar de demora, não foi difícil encontrá-la. Estava na cantina comprando doces. Esse era o momento oportuno, estava sozinha. Arrumei coragem e comecei caminhar em sua direção.

Nesse mesmo instante, aquelas sensações estranhas começaram a acontecer pela primeira vez; Meu suor estava gelado, meu coração queria pular do meu peito e as pernas ficaram tão bambas, que achei que ia cair. 


Tudo ao mesmo tempo.

Quando estava bem próximo, juntei todas a coragem do mundo e disse:

- Me empresta o catchup?




São Paulo 15 de Fevereiro de 2012 – 11h46min h

E lá estava ela. A coisa mais bela e fantástica que existia no planeta. Cada movimento, como pegar um copo, um talher, era para mim como a sincronia de um balé. Eu a desejava, sabia que tinha uma chance e mesmo com todas as coisas que começava a sentir enquanto caminhava, não deixei de ir em frente. Fiquei com ódio ao lembrar que toda vez que me aproximava de uma mulher, da qual eu não era apaixonado, me comportava como um verdadeiro Don Ruan. Mas toda vez que me apaixonava, ao tentar me aproximar, sempre me sentia e comportava como um verdadeiro idiota. Precisava me livrar desse pensamento...comecei a andar.

 Enquanto me movia, atento para a não perder de vista, me lembrava dos meses de preparação, da terapia, dos vários livros de auto-ajuda e até dos estudos sobre comportamento humano. Dessa vez, eu estava preparado, pronto para aquele estágio, e me sentia confiante...chega de fracassar.

Caminhando, senti a gota descendo, ignorei o fato. Sabia que as palpitações seriam as próximas sensações e também não me concentrei nisso. Eu estava conseguindo, os passos ainda estavam confiantes... mesmo com uma ligeira tremida no joelho, procurei não vacilar e continuei andando.


Parei em sua frente.

Olhei seus olhos, e com todo o sentimento que inundava meu coração naquele momento eu disse:

- Ainda tem café?










Abraço a todos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Pizza Portuguesa e o Fim do Mundo


Voltando do estágio, paro na banca de jornal e vejo a notícia: “Coréia do Norte ataca EUA com Ogiva nuclear”. Ligo para alguns colegas soldados e pergunto se é verdade, eles não respondem. Dois dias depois os mercados financeiros entram em um colapso e as bolsas caem em todos os países. Os governantes pedem calma, lugares que já eram precários, entram em estado de calamidade pública.


Os EUA, em resposta, decretam guerra a Coréia.  Logo Haeju- P'yŏngyang e Manpo são atingidas por bombas e varridas do país, em conseqüência a ONU se reúne, e dois blocos se dividem entre aliados e inimigos. Convocações começam no Brasil.

Na América latina, mercados e lojas começam a ser saqueados, a crise no pagamento dos funcionários públicos deixa o Chile sem Luz. A Europa se prepara para um ataque em massa, e o Irã declara que também pode usar suas ogivas nucleares se necessário.

Em nova York morrem três milhões de pessoas, vítimas de envenenamento. Um atentado da AL Qaeda, que aproveitava a fragilidade americana. Empresas que tinham investimentos na bolsa de valores decretam falência e multiplica-se o numero de desempregados no país.

Aliados começam a ser atacados com bombas, o Irá declara apoio a Coréia do Norte, e a Coréia do Sul é dizimada em dois ataques. As pessoas começam a fugir para montanhas e encostas, as cidades começam a ficar abandonadas. Aeroportos e portos são destruídos, qualquer tipo de comercio ou navegação fica obstruído. As casas começam a ser invadidas, não só no Brasil, mas em todos os lugares do mundo. Estupros e violência não conseguem mais ser registrados.

Pego o pessoal de casa, saímos de São Paulo e subimos para Minas, a Casa do tio Alberto é bem no meio do mato, logo a melhor solução para minha namorada e irmãs. Pego alguns cachorros e coloco no sitio. Aproveitando um saque a um supermercado de Belo Horizonte eu e meu primo pegamos mantimentos. Chegando a casa, começamos a cavar... Faríamos um bunker em baixo do solo do sitio.

As emissoras de tv começam a ser destruídas, ouvimos noticias de São Paulo por uma rádio pirata. As capitais brasileiras estão em caos, e no mundo algumas já não existem. Suicídios em massa no Japão e Tailândia assustam o resto da população.

Saímos mais uma vez, deixamos nosso tio armado no sitio, e as meninas escondidas no bunker, teríamos de juntar o máximo de alimento possível. Conseguimos alguns frangos de uma fazenda abandonada próxima, pegamos alguns litros de água e voltamos. Ficamos ali durante duas semanas.

Sabíamos que seria impossível viver naquele local durante muito tempo, mas o clima não era o ideal para viagens. O presidente dos EUA é assassinado. As estradas são tomadas por selvagens, que matam os pequenos grupos que se formam para proteger as pessoas que entram em conflito com o exército. Milhões de pessoas morrem no país.

Olhamos o morro e vemos uma multidão subindo a encosta, com facas e martelos em mãos,quando notei que vinham em direção ao sítio,começo a distribuir armas entre meus parentes, e me desespero. 

Quando o primeiro pula o cercado, dou-lhe um tiro na boca, e depois outro... eles se afastam. Logo alguém com uma tocha incendeia uma parte da casa. Digo para alguns primos descerem, que ficaria ali com a arma até todo mundo correr, mas algo me chama a atenção. Uma coisa imensa cai a uns quatro quilômetros dali.

 Vejo um fogo meio acinzentado cobrir a região e alguns cachorros e pessoas sendo desintegrados. Os caras que invadiram o sítio começam a correr, mas não adiantava. A luz chegava muito rápido, fechei meus olhos e senti um calor insuportável. Olhei para trás, mas...



Acordo ofegante. Levanto tomo um copo de água. A gripe ainda não tinha passado, eu estava encharcado de suor. Olho para fora e está um dia lindo de Sol. A vizinha chata com o mesmo cd do Michél Teló. Nada tinha mudado.

Fiquei pensando que realmente uma série de fatores em cadeia poderia destruir o planeta, e ao olhar aquele dia tão lindo, pensei em quanta coisa não valorizamos como família, amigos, natureza. Vida.

Mais de todos os pensamentos ali, uma precaução que deveria sempre tomar: Nunca mais comer pizza portuguesa antes de dormir.

Nunca.








sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Parábola da Batalha Espiritual



Dois de Janeiro era só mais um dia na Mallone e Associados. Ninguém queria trabalhar um dia depois do ano novo, mas devido a um e-mail que todos receberam na véspera de natal, os funcionários compareceram em peso.


A mensagem dizia que uma noticia importante seria dada, e que todos estivessem presentes. No ano passado, três pessoas do escritório foram promovidas nesta época, e a expectativa era grande com a saída de alguns funcionários. O boato era que existia apenas uma vaga.


Eram em 14 auxiliares, todos ex estagiários, esperando sua oportunidade. Ninguém ousou faltar. O silêncio reinava, todos apreensivos e preocupados, pois sabiam que aquele dia, poderia ser decisivo em suas carreiras.


Apesar de a maioria não saber realmente se alguém seria promovido, todo escritório tem suas indicações, e apenas seis, estavam cotados para alguma possível promoção.


Glória dos Anjos, evangélica ardorosa, trouxe a bíblia nesse dia. Em horários alternados fazia suas orações. Colou o Salmo 91 atrás do computador, para que espantasse um possível mal, que em sua opinião, mais precisamente vinha de Vênus, uma colega que sentava logo a sua frente. Naquele dia, um bom dia (seco), e uma dúvida sobre troca de notas, foi o máximo que conversaram.


Venus era praticante de Wicca e Glória abominava tais práticas. Naquele dia, jogou poções em volta de sua mesa, colocou uma árvore de alho na frente do telefone, recitando palavras em hebraico da kaballah judaica. Sabia que na disputa de poder, Glória não teria chance. Porém ainda existia uma pessoa que em sua opinião, poderia lhe tirar a vaga, Era o Evaldo, que sentava próximo ao bebedouro. Notadamente um bruxo, porque ela conhecia quem tinha essa vocação, e somente um bruxo pode descartar outro bruxo. Isso a preocupava.


Evaldo praticava o Candomblé, e um dia antes, colocou oferendas no mar para aumentar suas chances. Acendeu um incenso no banheiro, tomou um banho de sal grosso, e segurava sua guia toda vez que Vênus o olhava. Uma coisa que irritava profundamente Evaldo era o “Daruma” feito pelo Chirriro, o colega do canto da sala, que o fitava, como se o estivesse repreendendo. Era como se aquele amuleto com cara de gato estivesse vivo, olhando para ele o tempo todo.


 Chirriro era o único budista da empresa. O Daruma É um dos mais antigos e populares amuletos do budismo. Diz à lenda que ele representa um monge que teria passado nove anos meditando sobre uma rocha - o que lhe inutilizou os braços e as pernas. Chirriro acreditava que seus antepassados lutariam para que uma das vagas fosse sua, através do poderoso talismã.


 Quem era confundido como budista, da mesma crença do Chirriro era o Cheng, dos protocolos. Que sentava próximo ao Xerox.


Cheng é Taoísta. No Taoísmo se acredita que a mudança não vem de fora para dentro, e sim de dentro para fora. Arrumou sua mesa para que o Dragão (ki) passasse sobre ela. Essa era sua mais poderosa ferramenta, o Feng Shui, ou seja, a manipulação dos objetos para o direcionamento da energia.

Olhava para Chirriro com desdém, e sabia que aquele boneco vermelho na mesa dele, só iria atrapalhar os fluidos em vez de ajudar. Interrompendo seus pensamentos, Maria de Deus colocou as pastas de cadastros em cima da mesa e desarrumou seu Feng Shui. Cheng, olhando feio, reorganizou a mesa, e voltou ao trabalho.


Maria de Deus era uma católica diferente, não se incomodou com o olhar de Cheng, sabia que a única forma de desbancar todos aqueles concorrentes, seria cantando as músicas do padre Marcelo e beijando seu crucifixo de 10 em 10 minutos. Fez uma promessa, que se ganhasse a vaga, andaria de joelhos mil metros antes da imagem de Aparecida em um dia de peregrinação. Estava confiante.


E assim naquele dia, todos se entreolhavam com desconfiança. Era como se o sucesso de um dependesse do fracasso do outro. Em intervalos de minutos, se agarravam a seus objetos de fé, e pediam para que nenhum de seus colegas profissionais passasse a sua frente. Uma verdadeira guerra espiritual era travada, e no invisível, anjos, seres mitológicos, espíritos de antepassados, orixás e todos os tipos de coisas etéreas se degladiavam a pedido de seus seguidores.


No fim do dia, o chefe chamou a todos na sala de reunião. Havia uma tensão no ar. Todos continuavam apreensivos. 


Sabiam que naquele momento seria decidido, quem era espiritualmente mais forte, então levaram em suas mãos os objetos de suas crenças, e apertaram como se fosse a última coisa que pegassem na vida. Entraram na sala, e ao olhar para o dono da empresa, ficaram atentos, ouvindo suas palavras:


- Vocês estão aqui para saber uma noticia muito ruim, e espero que entendam este nosso momento. Nossos empreendimentos e parcerias diminuíram muito no último ano, e devida algumas circunstâncias, eu e meu sócio descobrimos que estamos falídos. Quero que saibam que apesar de decretar falência, garantiremos que alguns de seus direitos básicos sejam mantidos, pelos serviços prestados com afinco, no qual a empresa agradece os anos de dedicação e trabalho.


Eu sinto muito ter de dizer isto, boa sorte a todos na procura de outro emprego... Estão dispensados.


Nesse momento, todos não se olhavam mais com desconfiança, mas sim com um aperto enorme no coração. Ali no meio do escritório alguns começaram a se abraçar e chorar, e todos se confortaram. Alguns tinham anos trabalhando ali. Naquele momento não importava mais quem era quem, e quem era o que, e sim a dor que os unia naquelas horas de abatimento. Todos os anos, empresas vão à falência, mas ninguém esperava que a Mallone fosse uma delas.


 Duas semanas mais tarde, as mesas limpas não deixavam sequer rastro, de que ali, naquele local, fora travado a maior batalha espiritual daquele ano. Todos saíram derrotados. Não existia uma força superior entre as crenças, e apesar daquele momento triste, entenderam, e levariam para sua próxima empreitada profissional o ensinamento que torcer para que todo mundo seja feliz é a melhor maneira de cultivar a sua fé.


Católicos contra protestantes, judeus contra islâmicos, não importa qual a religião ou conflito, mais importante que uma promoção no emprego, são as vidas humanas que são perdidas em vários lugares do mundo, em favor do preconceito e do fanatismo. Nesse ano que agora chegou, que todas as pessoas que entendam o amor, façam ele valer, esquecendo as diferenças e cultivando o que existe de bom em cada coração.


 Que todas as nossas batalhas espirituais tenham um só intuito... construir um ambiente de paz.


“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.”

Albert Einstein

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A Ridícula árvore de Natal


Hoje passando pelo centro de Osasco, vi uma linda decoração natalina, dessas de encher os olhos, na praça da prefeitura municipal. Era interessante ver como as crianças que estavam por ali olhavam para aquilo como se fosse a coisa mais espetacular do planeta. Aqueles olhares brilhantes, me levaram a um passado muito distante, onde também era mês de Dezembro.


Morando com três irmãos e minha avó, dois anos após a morte dos meus pais, as condições não eram das melhores. Mesmo assim, minha velha era uma guerreira e nunca faltou nada para comer. Porém, como dizem os titãs, a gente não quer só comida, e acabamos tendo alguns problemas como a falta de roupas, brinquedos e medicamentos, as vezes quando necessário.


Conversei com a velha sobre a possibilidade de uma árvore. Disse que não queria ganhar nada além dela, mas minha velhinha triste, comentou que não teria condições de dar algum presente, quanto mais montar uma árvore de natal. Aquilo me derrubou. 


Mais tarde, cai na real, que aquilo tinha derrubado ela também. Talvez de um jeito pior.


Imagine uma senhora de 54 anos cuidando de quatro netos órfãos com aposentadoria comum por idade. Não precisei de maturidade para entender que ela falava a verdade, mas aquilo não era suficiente na minha cabeça. Chorei escondido. Escondido, porque meninos não choram. Principalmente os orfãos.


 Hoje entendo as jogadas do marketing e da publicidade, e de como é construído um sonho na mente das crianças. Não ter uma árvore de natal para mim, uma criança de nove anos naquela época, era uma coisa insuportável.


Fui então a um terreno baldio perto da minha casa, a ideia era tentar achar alguma coisa que se parecesse com uma árvore decente, para decorar nossa sala cozinha e banheiro (Era uma casa simples de três cômodos). Fiquei horas procurando até que achei uma coisa extraordinária: um pedaço de pinheiro, dos grandes, que bem remodelado poderia resolver o meu problema. 


Peguei o pedaço e levei a casa de uma vizinha japonesa jardineira chamada Massaki. Ela me deu uma lata de óleo, daquelas gigantes que não vendem mais hoje, mas antes, porém, decorou os lados com um papel crepom, e sorriu antes que eu fosse embora. Depois daquele dia nunca mais lutei contra os espinhos assassinos da vizinha japonesa.


Pedi para alguns amigos se poderiam me dar algumas das bolas laminadas que colocavam nas árvores, e de amigo em amigo, consegui trinta e seis de várias cores e tamanhos.


Para fechar com chave de ouro, entrei na casa da senhora Maria Conceição, uma velha chata que furava todas as bolas de meninos que jogavam na rua de cima, incluindo uma minha. Roubei o pisca- pisca da entrada da casa dela. Na minha cabeça, ela me devia pela minha bola, e não fiz nada de errado. Quem não concordar com meu pensamento, tenho a melhor das justificativas. Eu era uma criança. Ponto final.


Juntamos toda a galera e começamos a lavar a tal árvore. Pintamos com o guaxe verde da minha vizinha mais feinha as partes secas, e no final do processo, tínhamos uma legítima Frankenstein das arvores de natal. Meio ridícula para quem tem uma comum, dessas compradas, porém a mais linda das árvores para mim e meus amigos.


Quando cheguei em casa e meus irmãos a viram , seus corações bateram tão forte que por um momento...eu podia ouvir. Minha avó sorriu com aquele famoso olhar (O que será que esse peste aprontou de novo?) mas não me disse nada. Naquele natal ganhamos muitas coisas dos parentes distantes, e parecia que a mágica tinha chegado até mim, era o ano de 2001.


Hoje na minha casa tem uma árvore bem legal, com uma estrela bem grande na ponta, minha filha e meus sobrinhos recebem os presentes do dia 25, embaixo dela. Toda vez que chegamos na época de natal, me vêem essas recordações e sempre me pergunto se muitas crianças do bairro ainda procuram árvores em terrenos baldios.



Já parou para pensar que na sua rua, não só na África ou no Sudão, nem na Palestina, existem pessoas privadas do direito de sonhar? 


Você ajudou alguém do seu bairro esse ano?


Se sim. Obrigado.


Daqui a vinte um anos, alguém vai lembrar de você...eu juro!








Dedico este texto a Ana Cecília Romeu e a meu amigo André Mansim...obrigado por pedir para publicar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O formigueiro é humano

Outro dia uma senhora desabafou na fila de embarque do trem, sentido Conrinthians-Itaquera: “Esse metrô parece um formigueiro”.

  Para a linguagem popular, “formigueiro humano” é um lugar-comum; para seus milhões de usuários, o metrô de São Paulo é um lugar comum. Para mim, metrô e formigueiro têm mais em comum do que se pensa.

Alguns dias depois desse evento, parei para observar o vai-e-vem na estação Sé. Estava debruçado sobre o parapeito de concreto que circula o vão central. O sol da tarde se pusera; baforadas de vento desciam as escadarias e atravessavam as catracas assaltando os mal-agasalhados. Os radares descreviam uma sexta-feira de trânsito caótico e os termômetros anunciavam uma noite fria. Mas lá embaixo, nos vagões lotados, não havia espaço para o frio. Era horário de pico no formigueiro humano.

Todos os dias, 3,4 milhões de pessoas entram e saem dos vagões do metrô de São Paulo. São passageiros que correm e esbarram uns nos outros. Alguns deles abrem caminho na multidão a cotoveladas e precipitam-se para portas prestes a fechar. Crianças, mãos dadas aos pais, cambaleiam em meio à correnteza de pernas; outros, muito idosos, caminham encurvados na companhia de suas bengalas; alguns, em dupla, combatem o frio se amassando próximos a pilastras onde se lê o aviso: “área de embarque exclusivo para idosos”. Pela organização ou pela desordem: o formigueiro é humano.

Até o criativo Franz Kafka ficaria boquiaberto se presenciasse a metamorfose coletiva do metrô paulista. A certa altura da reflexão, lembrei-me do velho Bertold Brecht e seu clássico poema, “Se os tubarões fossem homens”. Então surgiu a dúvida inevitável: e se as formigas fossem homens?

Se as formigas fossem homens, cavariam imensos túneis, semelhantes aos primitivos formigueiros. A esses túneis dariam o nome de metrô. O metrô seria um importante meio de transporte para as formigas-estudantes, utilizado por algumas formigas-executivas, mas principalmente pelas formigas-operárias.

Se as formigas fossem homens, a tirania matriarcal das formigas-rainha estaria ameaçada. Claro que, por um princípio democrático, alguma delas teria que mandar nas demais. Caberia a essa formiga-governadora determinar quando é a hora de ampliar as linhas de metrô, embora se reconheça que formigas com vocação política pouco o utilizem.

Num gesto de civilidade, possível somente aos homens, as formigas aceitariam educadamente as condições precárias do metrô, apesar das disputas férreas travadas para ocupar os raros assentos vazios (nesse caso, vale até pisotear as patas traseiras de alguma semelhante). Afinal, isso seria compreensível, pois as formigas-operárias, famosas por sua força sobre-humana, carregam bolsas e mochilas pesadíssimas - como as que já se veem pelas estações pesando em ombros humanos.

Se as formigas fossem homens, enfim, raciocinariam. Portanto, teriam sentimentos os pequenos insetos. Algumas formigas, conscientes da própria miséria, fariam do metrô seu sepulcro, lançando-se desesperadas aos trilhos. Por questões de conveniência, algo tipicamente humano, uma voz soaria pelos alto-falantes dos vagões:

- “Paramos para retirada de objeto da linha”.



Um texto de Renan Xavier.
Ilustração : Novais

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Ping-Pong no "Histórias de Emilia"

Depois de um maravilhoso 4x4 , fui novamente chamado pela minha amiga Emiliana, para um papo reto, sem medida e frescura, onde os meus camaradas vão poder saber um pouquinho mais de mim. Como sempre convido aos meus amigos de blogosfera para que visitem,  pois o que seria de mim sem vocês, as pessoas maravilhosas que veem aqui e deixam sua contribuição no meu espaço.

Sem mais...obrigado pelos carinhos e visitas frequentes ao Crônicas !
Espero vocês lá na Emiliana !

Segue o link:
 http://historiasdeemilia.blogspot.com/









quinta-feira, 20 de outubro de 2011

O Tempo

O tempo sabe ser bom, o tempo é largo, o tempo é grande, o tempo é generoso, o tempo é farto é sempre abundante em suas entregas:


 Amaina nossas aflições, dilui a tensão dos preocupados, suspende a dor aos torturados, traz a luz aos que vivem nas trevas, o ânimo aos indiferentes, o conforto aos que se lamentam, a alegria aos homens tristes, o consolo aos desamparados, o relaxamento aos que se contorcem, a serenidade aos inquietos, o repouso aos sem sossego, a paz aos intranqüilos, a umidade às almas secas; 


O Tempo satisfaz os apetites moderados, sacia a sede aos sedentos, a fome aos famintos, dá a seiva aos que necessitam dela, é capaz ainda de distrair a todos com seus brinquedos; em tudo ele nos atende, mas as dores da nossa vontade só chegarão ao santo alívio seguindo esta lei inexorável: a obediência absoluta à soberania incontestável do tempo, não se erguendo jamais o gesto neste culto raro; é através da paciência que nos purificamos, em águas mansas é que devemos nos banhar, encharcando nossos corpos de instantes apaziguados, fruindo religiosamente a embriaguez da espera no consumo sem descanso desse fruto universal, inesgotável


Sorve  até a exaustão o caldo contido em cada bago, pois só nesse exercício é que amadurecemos, construindo com disciplina a nossa própria imortalidade, forjando, se formos sábios, um paraíso de brandas fantasias onde teria sido um reino penoso de expectativas e suas dores(..)`




(Trecho de Lavoura Arcaica - o Tempo  – Raduan Nassar)