
Na parte de cima da ladeira, paravam antes de descer. Olhar para baixo e sentir um frio na barriga era comum, porém nada parecia assustar aquelas crianças, que desciam rente aos carros, agora em uma velocidade descomunal. A única diferença é que, diferente de outros ciclistas, largavam o guidão, com exceção de um, esse, sempre considerado o mais medroso da turma.
Se ninguém caia, um prêmio para todos, uma tubaína, rachada dos trocados que conseguiam arrumar vendendo garrafas dos vizinhos para o homem da reciclagem. Antes de ir embora uma parada ao por do sol do barranco, onde ninguém ousava falar. Eram felizes naquele momento, naquele universo resumido e cheio de uma beleza simples, de valor inestimável.
Se ninguém caia, um prêmio para todos, uma tubaína, rachada dos trocados que conseguiam arrumar vendendo garrafas dos vizinhos para o homem da reciclagem. Antes de ir embora uma parada ao por do sol do barranco, onde ninguém ousava falar. Eram felizes naquele momento, naquele universo resumido e cheio de uma beleza simples, de valor inestimável.
O tempo passou, e a galera das bikes começou a dispersar. Um se envolveu com o crime organizado, começou a roubar carros e vender drogas. Ainda conversava com o resto da galera, que tentava convencê-lo a parar, o que era inútil... com o tempo sua identidade se perdeu e mal se lembrava que um dia foi da turma. Morreu em um tiroteio com policiais, fugindo de uma loja de jóias.
Um segundo mudou-se para o litoral de São Paulo, montou um negócio de roupas de surf e começou a ganhar muito dinheiro. Sua marca cresceu e chegou até a pensar na possibilidade de exportar, mas com a pirataria, começou a perder clientes, não conseguiu pagar suas dívidas e faliu. Quando sua mulher o deixou, ficou com problemas psicológicos e desapareceu.
Um dia, após muita procura um dos amigos da turma, junto com alguns familiares o encontraram em um hospício no interior de São Paulo. Estava irreconhecível, e segundo os médicos, seria muito difícil voltar a ser á pessoa que era.
O terceiro continuou na vila, trabalhava de segunda a domingo, arrumou uma namorada aos 17 e teve dois filhos. Com as dificuldades, teve de largar a escola pra se dedicar ao trabalho e com o tempo, e mais um descuido, veio o terceiro filho. Alguns vizinhos diziam que era infeliz, que tinha uma mulher que não ajudava muito, que não conseguia juntar dinheiro suficiente porque pagava aluguel, e se queixava da vida constantemente. Não se importava em rever velhos amigos, e acabou no esquecimento. Que fique claro que não era má pessoa, mas tornou- se azedo, por não pensar em uma vida em longo prazo, coisa muito comum de se acontecer hoje em dia. De vez em quando via um amigo dos tempos de bike, acenava e continuava andando. Era como se um daqueles garotos nunca tivesse existido, e no fim não existia mais mesmo.
O quarto, que era o líder da turma, mudou-se para um bairro vizinho e virou policial militar. Apesar de ter um salário relativamente bom, vivia com medo e nunca dizia aos outros qual era sua profissão, pois tinha receio das retaliações dos bandidos. Com o tempo a neurose aumentava, e tinha de mudar de casa a cada dois anos para se sentir seguro. Tentou engravidar a esposa e descobriu-se estéril. Apesar das intempéries acabou adotando um garoto de rua, que tinha como filho. Um dia um dos amigos tentou contato e não conseguiu, disseram que ele pedira transferência para outro estado, assim ficando cada vez mais longe e inacessível.
E chegamos finalmente ao medroso... aquele que não largava o guidão.
Esse terminou o segundo grau e fez um curso de radiologia, casou, mas quando percebeu o erro remediou e separou-se ainda sem filhos. Trabalhava e estudava a maior parte do tempo, viajou para quase todos os estados do Brasil, ia a todos os shows de rock que podia ir e curtia a vida como se fosse sempre o ultimo dia. Voltou a fazer faculdade, dessa vez a que queria, e conheceu muitas pessoas. Tinha um trabalho estável, e estava sempre sorrindo. Podemos dizer que de todos os da turma da bike, era o mais feliz.
Hoje esse cara saiu de casa de bicicleta, e meio desajeitado, riu de si mesmo por não praticar aquilo há tanto tempo. Andou por vários lugares, passou o barranco do por do sol, e finalmente chegou à ladeira do “Vai pro céu”. Olhou para baixo e sentiu o velho frio na barriga. Apesar de ter crescido, ainda sentia o medo de descer, mas sem pensar muito, desceu sem as mãos, e como sempre no meio do caminho agarrava o guidão, descendo com ele apertado, como se fosse a ultima coisa que pegasse na vida.
Enquanto descia e sentia o vento bater no rosto, pensava sobre o guidão... aquela parte da bicicleta era como um reflexo de sua vida, e todo mundo que descia sem a segurança do guidão, como seus amigos faziam, acabava se dando mal. Ficou feliz ao invés de chateado, como ficava quando os amigos o chamavam de covarde, pois dessa vez ele entendeu, que na maioria das vezes , na vida não se deve largar o guidão.
Não se deve deixar a vida solta como se fosse uma bicicleta sem direção. Todo passo deve ser pensado e medido, para que no futuro, haja felicidade. Ficou triste pelos amigos, queria que aquela realidade fosse diferente, mas sabia que a vida não era conto de fadas.
Enquanto descia e sentia o vento bater no rosto, pensava sobre o guidão... aquela parte da bicicleta era como um reflexo de sua vida, e todo mundo que descia sem a segurança do guidão, como seus amigos faziam, acabava se dando mal. Ficou feliz ao invés de chateado, como ficava quando os amigos o chamavam de covarde, pois dessa vez ele entendeu, que na maioria das vezes , na vida não se deve largar o guidão.
Não se deve deixar a vida solta como se fosse uma bicicleta sem direção. Todo passo deve ser pensado e medido, para que no futuro, haja felicidade. Ficou triste pelos amigos, queria que aquela realidade fosse diferente, mas sabia que a vida não era conto de fadas.
Parou no bar que ainda existia e tomou uma tubaína... montou na bike e seguiu em frente, com as duas mãos no guidão. No seu pensamento se achava preparado para qualquer tipo ladeira que aparecesse.
E realmente estava !
Para Ney, Marcio, Alemão e Rosana – Para sempre em nossos corações!
Um texto de Victor Von Serran