
Se olhar no espelho de manhã, nunca foi uma coisa tão estranha. Penteando-me, pude ver um enorme e longo cabelo branco. O detalhe é que eu nunca havia tirado um só cabelo branco da minha cabeça. Talvez, seja essa a maior lembrança do meu aniversário de 30 anos.
Passado alguns meses, uma menina de oito anos, filha de uma vizinha, pediu à bola que caiu por acidente no meu quintal:
Passado alguns meses, uma menina de oito anos, filha de uma vizinha, pediu à bola que caiu por acidente no meu quintal:
- Tio, pega a bola para mim?
- Tio... Como assim “Tio”?
Tudo bem que às vezes exageramos ao errar a idade das pessoas, mas me chamar de tio?, Fiquei pensando se ela não tinha me enxergado direito, mas quando devolvi a bola, houve a confirmação:
- Brigadão Tio.
Quando tomava alguma coisa nos bares, comecei a notar algo, que até aquele momento, era absolutamente incomum para mim. Todo mundo estava tão colorido. Calças vermelhas e a galera com alguns tênis que pareciam infantis. Eu queria comentar com meus amigos, mas, os que eu tinha agora que voltei a estudar, se vestiam todos da mesma forma. Comecei a pensar se a velha camisa preta de roqueiro e meu All Star cano baixo estavam fora de moda. E se eu também estava fora da moda. Isso sem falar no maldito funk carioca, que todo mundo dizia gostar, menos o tiozão aqui.
Minha namorada dizia, que eu me preocupava demais com a minha idade, mas eu percebia que os caras que mexiam com ela, tinham 10 anos a menos que eu. Ela de forma alguma, diria que sou velho demais para ela. Quando eu procurava um estágio, ou prestava um concurso, um dos critérios que mais lia era “até 24 anos”. Ao abrir o álbum de fotos de colegas do primario, percebi que quase todos os meus amigos, já tinham filhos e aparentavam ser bem mais velhos. Isso não me deixava aliviado, pois o fantasma da menininha da bola morava a três casas da minha e sempre me lembrava, que perspectiva é uma coisa individual.
Eu tinha uma casa própria, trabalhava e sempre buscava me aperfeiçoar profissionalmente. Mas ao mesmo tempo, assistia a animes, andava de skate, praticava Swordplay e me acabava nas baladas de sexta. Será que estava na hora de começar a refletir sobre as mudanças e aceitar todos os sinais, que diziam que eu deveria mudar os hábitos, pois não era tão jovem, para continuar fazendo as mesmas coisas?
Deveria me enxergar naquele momento, como um “Homem de meia idade”?
Foi quando indo resolver um problema no fórum da João Mendes, conheci um cara de 23 anos chamado Marcel. Começamos a conversar sobre vários assuntos, mais a maioria deles, era sobre responsabilidade. Ele me mostrou uma agenda, onde marcava os horários para comer, para sair, para estudar e até quanto de bebida podia tomar até se embriagar. Marcel mostrou uma dieta que estava fazendo, onde não se podia comer nada de chocolate e carne vermelha.
Olhando seu terno de linho, quase teve um treco, quando viu um pedaço de lã vermelho na parte posterior do ombro. Tudo parecia tão controlado, tão certinho, que não resisti e perguntei:
- Cara, todo esse controle não te sufoca não?
E com cara de espanto, ele respondeu:
- Não... Sou responsável desde pequeno e sei que o não, é tão importante como o sim. Sou o orgulho da casa, o filho mais querido da minha mãe. Vejo bastante gente fazendo coisa errada e sei que alguns têm sorte de sobreviver. Organização é tudo na vida, concorda?
Concordei para não entrar em outro debate. Cinco minutos com aquele individuo, foi o bastante para perceber, o quanto eu estava sendo idiota comigo mesmo. Entendi que ser velho, era um estado de espírito, pois se um cara de 23 anos poderia ter o cérebro de um aposentado, um cara de 30 poderia fazer o que quisesse. Despedi-me de Marcel, e logo depois ao descer a primeira rua na volta, agradeci a Deus, por me mostrar que ninguém é maduro o bastante, para deixar de fazer o que gosta.
No dia seguinte, enquanto subia a ladeira de skate na mão, pude notar que as pessoas nem ligavam para o fato de um cara de 30 anos, ainda andar de skate. Às vezes nós perdemos muito tempo, tentando pensar no que a sociedade acha de nossos comportamentos e piramos nisso. Coloquei o fone de ouvido e comecei a ouvir “Dani Califórnia” do Red Hot Chili Peppers. Enquanto descia a ladeira, sentia o vento batendo no rosto e era uma sensação maravilhosa. Sabia que continuaria fazendo aquilo. Ainda assistiria muito anime, ainda dançaria muito Rock and Roll e andaria muito de skate, antes de me tornar um Marcel da vida. Todos esses pensamentos me vinham à mente, até eu me espatifar no corsa cinza estacionado no fim da rua.
Com um beiço inchado e um olho roxo, ninguém entendia porque eu ria do meu próprio tombo. As estatísticas diziam que os jovens, costumam ter muito mais acidentes que homens de meia idade.
É verdade. Eu estava ali para comprovar.
Até a próxima postagem.
Até a próxima postagem.