sábado, 31 de março de 2012

Praça Por do Sol

A praça estava cheia, era 05:38 da manhã, quando ele tentou novamente. Aproximou-se devagar, e, vencendo sua timidez, tocou levemente sua mão. Ela esquivou, cruzou os braços, olhou para ele e deu um sorriso sem graça. O Sol começou a aparecer e as pessoas que trabalhavam na região de Pinheiros, paravam para assistir. Era lindo, por isso o nome da praça era Por do Sol.

                                                                                (Foto: Valéria Gonçalves)

Depois de uma noite regada a Rock and Roll, eles estavam exaustos. Já fazia um ano que saiam, sempre como amigos. Ele sempre tentou, sabia que a amava e estaria disposto a esperar. Ela nunca teve dúvidas de seus sentimentos. Não sentia o mesmo afeto. Sempre com suas saídas estratégicas, conseguia enrolar, para não ficar com o amigo, que sempre tentou um relacionamento.

Certa vez, pensou se deveria ficar com ele, mas quando se olhava no espelho, pensava: mereço coisa melhor. Era jovem e bonita, e ele, um cara simples demais, sem muitas ambições, não era bonito suficiente, não o suficiente para que fosse seu namorado. Seria como um eterno amigo, só isso. Quem poderia julgar? Seria errado querer alguém melhor? 

Para ela não.

O tempo passou, já fazia um mês que ele não ligava. Na hora do almoço, saiu do serviço, pegou o celular:

- Oi você ta bem?

-To sim, to legal, e você? – Ele disse

Conversaram um pouco e logo ele desligou. Agora que ela sabia que tudo estava bem, ouvindo sua voz por um instante, continuou com sua vida. Sem ele por perto as baladas eram mais divertidas. Conhecia uns caras interessantes, bonitos, sarados e estabelecidos. Dormia com um, com outro, ignorando o fato de serem horríveis de cama, ou estúpidos. O importante é que todos os homens que passaram por ela naquele período eram semelhantes. Pessoas com quem ela sempre sonhou se envolver.

 Mas todos fugiam antes de chegar o café do hotel, e, ignoravam as ligações no dia seguinte. Havia uma certa mágoa naqueles momentos, mas para ela tudo bem. Tem alguém legal me esperando por ai – ela pensava.

Com os dias passando, sentiu falta dele novamente. Marcou uma balada, estava com saudades da companhia. Precisava se sentir desejada, querida:

-Você vem amanhã?

- Vou...Posso levar uma pessoa?

- Ótimo, pode trazer.

Talvez um amigo, ela pensava. Ele deve ter falado dela. Se fosse bonito e legal, porque não?

As 22:30 se encontraram na Augusta. 
Ele chegou, com uma menina. 

Ela sentiu uma coisa ruim, mas tentou não demonstrar. Esperava por um amigo e de repente, se viu perturbada com aquela garota. Conversavam bastante apesar disso. Ela era professora, e se mostrava bastante receptiva. Ele já não olhava para ela como antes, mas para a menina, tudo era um sorriso. Tentou não pensar nisso. 

Foram para a praça. As pessoas procuravam um lugar para sentar, alguns com cervejas, outros com algo a mais, ninguém se incomodava. Então eles ficaram a uma distância razoável do local onde ela estava:

- Licença um pouco anjo, vou ali com ela e já volto ok?

- Fiquem a vontade!

E assim foi. Ela os observava de longe, mas não se deixava perceber. 
Ele se aproximou da garota, pegando na mão dela. Ela correspondeu e logo se beijaram. Ali naquele local, se deu conta de quanto gostava do cara simples sem ambição. 

Porque algumas mulheres são tão idiotas - ela pensava.

Há pouco tempo atrás, naquele mesmo local, poderia estar ali, sentindo o amor de um homem que estava pronto para aceitá-la. Sentiu vontade de chorar, mas se refez. Depois do nascer do sol, decidiram ir embora. Antes de se despedir, ele a abraçou. Ela sentiu a ternura de um amigo. Apenas um amigo, como ela sempre desejou.

Ao chegar em casa, revia todas as fotos que tinha com ele, sabendo que depois daquele dia, seria difícil ver outra foto nova dos dois juntos. Talvez devesse ligar e dizer o quanto gostava, o quanto estava arrependida, mas logo desistiu.

Quando foi tomar um banho, olhou no espelho e lembrou de um fato. 

Era jovem e bonita. Merecia coisa melhor...

Merecia.









quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

A Crise da Meia Idade


Se olhar no espelho de manhã, nunca foi uma coisa tão estranha. Penteando-me, pude ver um enorme e longo cabelo branco. O detalhe é que eu nunca havia tirado um só cabelo branco da minha cabeça. Talvez, seja essa a maior lembrança do meu aniversário de 30 anos.

Passado alguns meses, uma menina de oito anos, filha de uma vizinha, pediu à bola que caiu por acidente no meu quintal:


- Tio, pega a bola para mim?

- Tio... Como assim “Tio”?

Tudo bem que às vezes exageramos ao errar a idade das pessoas, mas me chamar de tio?, Fiquei pensando se ela não tinha me enxergado direito, mas quando devolvi a bola, houve a confirmação:

- Brigadão Tio.

Quando tomava alguma coisa nos bares, comecei a notar algo, que até aquele momento, era absolutamente incomum para mim. Todo mundo estava tão colorido. Calças vermelhas e a galera com alguns tênis que pareciam infantis. Eu queria comentar com meus amigos, mas, os que eu tinha agora que voltei a estudar, se vestiam todos da mesma forma. Comecei a pensar se a velha camisa preta de roqueiro e meu All Star cano baixo estavam fora de moda. E se eu também estava fora da moda. Isso sem falar no maldito funk carioca, que todo mundo dizia gostar, menos o tiozão aqui.

Minha namorada dizia, que eu me preocupava demais com a minha idade, mas eu percebia que os caras que mexiam com ela, tinham 10 anos a menos que eu. Ela de forma alguma, diria que sou velho demais para ela. Quando eu procurava um estágio, ou prestava um concurso, um dos critérios que mais lia era “até 24 anos”. Ao abrir o álbum de fotos de colegas do primario, percebi que quase todos os meus amigos, já tinham filhos e aparentavam ser bem mais velhos. Isso não me deixava aliviado, pois o fantasma da menininha da bola morava a três casas da minha e sempre me lembrava, que perspectiva é uma coisa individual.

Eu tinha uma casa própria, trabalhava e sempre buscava me aperfeiçoar profissionalmente. Mas ao mesmo tempo, assistia a animes, andava de skate, praticava Swordplay e me acabava nas baladas de sexta. Será que estava na hora de começar a refletir sobre as mudanças e aceitar todos os sinais, que diziam que eu deveria mudar os hábitos, pois não era tão jovem, para continuar fazendo as mesmas coisas?

Deveria me enxergar naquele momento, como um “Homem de meia idade”?

Foi quando indo resolver um problema no fórum da João Mendes, conheci um cara de 23 anos chamado Marcel. Começamos a conversar sobre vários assuntos, mais a maioria deles, era sobre responsabilidade. Ele me mostrou uma agenda, onde marcava os horários para comer, para sair, para estudar e até quanto de bebida podia tomar até se embriagar. Marcel mostrou uma dieta que estava fazendo, onde não se podia comer nada de chocolate e carne vermelha.

Olhando seu terno de linho, quase teve um treco, quando viu um pedaço de lã vermelho na parte posterior do ombro. Tudo parecia tão controlado, tão certinho, que não resisti e perguntei:

- Cara, todo esse controle não te sufoca não?

E com cara de espanto, ele respondeu:
- Não... Sou responsável desde pequeno e sei que o não, é tão importante como o sim. Sou o orgulho da casa, o filho mais querido da minha mãe. Vejo bastante gente fazendo coisa errada e sei que alguns têm sorte de sobreviver. Organização é tudo na vida, concorda?

Concordei para não entrar em outro debate. Cinco minutos com aquele individuo, foi o bastante para perceber, o quanto eu estava sendo idiota comigo mesmo. Entendi que ser velho, era um estado de espírito, pois se um cara de 23 anos poderia ter o cérebro de um aposentado, um cara de 30 poderia fazer o que quisesse. Despedi-me de Marcel, e logo depois ao descer a primeira rua na volta, agradeci a Deus, por me mostrar que ninguém é maduro o bastante, para deixar de fazer o que gosta.

No dia seguinte, enquanto subia a ladeira de skate na mão, pude notar que as pessoas nem ligavam para o fato de um cara de 30 anos, ainda andar de skate. Às vezes nós perdemos muito tempo, tentando pensar no que a sociedade acha de nossos comportamentos e piramos nisso. Coloquei o fone de ouvido e comecei a ouvir “Dani Califórnia” do Red Hot Chili Peppers. Enquanto descia a ladeira, sentia o vento batendo no rosto e era uma sensação maravilhosa. Sabia que continuaria fazendo aquilo. Ainda assistiria muito anime, ainda dançaria muito Rock and Roll e andaria muito de skate, antes de me tornar um Marcel da vida. Todos esses pensamentos me vinham à mente, até eu me espatifar no corsa cinza estacionado no fim da rua.

Com um beiço inchado e um olho roxo, ninguém entendia porque eu ria do meu próprio tombo. As estatísticas diziam que os jovens, costumam ter muito mais acidentes que homens de meia idade.

É verdade. Eu estava ali para comprovar.

Até a próxima postagem.










terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

As Três Sensações

 São Paulo 15 de Fevereiro de 2012 – 11h45min h



Todos os dias quando chego ao escritório, a primeira coisa que eu sempre faço, é olhar para a mesa dela.
Era amedrontador imaginar que a presença daquela mulher me afetava tanto.

A coisa ficou mais complicada, quando que, por decreto da empresa, nossos departamentos estreitaram comunicações. E todo dia, ao levar os malditos relatórios de empreendimentos, manifestava aqueles sintomas.

Começava com o suor frio. Podia sentir a gota gelada descendo pela minha testa, caindo pelo meu rosto. Em seguida, um frio na barriga, algo incomodo, que não tem a ver com dor, mas com o simples receio de estar ali. As pernas começavam a tremer. Tudo que eu podia fazer, era entregar os papéis o mais rápido possível e dizer:

- Bom dia Cecília!

E durante oito meses, isso foi tudo que eu fiz.

Porém aquele dia era especial, tinha resolvido me declarar, e a chamar para sair. Tudo que eu tinha de fazer era caminhar em sua direção e dizer o que sentia de verdade. Sabia que tinha coragem suficiente para isso, e consegui me convencer. Se não me declarasse, me sentiria culpado simplesmente por não saber o resultado. Tinha de  tentar, e naquele mesmo dia.

 Depois do almoço, em um horário em que quase ninguém estava no local, olhei para a frente e lá estava ela, sozinha na maquina de café. Achando que essa foi a melhor oportunidade que poderia ter aparecido, começo a caminhar em sua direção. Coisas do passado começam a passar pela minha cabeça, como em um filme, coisas que não gosto de lembrar...


Cotia 28 de Fevereiro de 1994 – 09h35min h

Carol é a garota mais linda da sala. Assim foi decidido por votação por todos os meninos do terceiro ano, e por mim também. Todos os dias na hora do recreio, eu ficava observando aquela garota loira, imaginando se a gente poderia ver o por do Sol em cima do muro do terreno baldio, na rua do português. Depois eu pegaria em sua mão e a beijaria.

Decidi que depois do hino cantado no pátio, a convidaria para passear comigo. Eu gostava dela desde a segunda série. Enquanto imaginava as várias possibilidades, cheguei à conclusão que tinha de me declarar, mesmo se levasse um fora. No fundo eu não tinha nada a perder, e não saber era pior.

 Cheguei mais cedo, fui com a roupa mais bonita que eu tinha, ensaiei várias vezes. Achava-me preparado. Até o fim da tarde, meu coração dizia que estaríamos de mão dadas em cima do muro da rua do português.

Na hora do intervalo, apesar de demora, não foi difícil encontrá-la. Estava na cantina comprando doces. Esse era o momento oportuno, estava sozinha. Arrumei coragem e comecei caminhar em sua direção.

Nesse mesmo instante, aquelas sensações estranhas começaram a acontecer pela primeira vez; Meu suor estava gelado, meu coração queria pular do meu peito e as pernas ficaram tão bambas, que achei que ia cair. 


Tudo ao mesmo tempo.

Quando estava bem próximo, juntei todas a coragem do mundo e disse:

- Me empresta o catchup?




São Paulo 15 de Fevereiro de 2012 – 11h46min h

E lá estava ela. A coisa mais bela e fantástica que existia no planeta. Cada movimento, como pegar um copo, um talher, era para mim como a sincronia de um balé. Eu a desejava, sabia que tinha uma chance e mesmo com todas as coisas que começava a sentir enquanto caminhava, não deixei de ir em frente. Fiquei com ódio ao lembrar que toda vez que me aproximava de uma mulher, da qual eu não era apaixonado, me comportava como um verdadeiro Don Ruan. Mas toda vez que me apaixonava, ao tentar me aproximar, sempre me sentia e comportava como um verdadeiro idiota. Precisava me livrar desse pensamento...comecei a andar.

 Enquanto me movia, atento para a não perder de vista, me lembrava dos meses de preparação, da terapia, dos vários livros de auto-ajuda e até dos estudos sobre comportamento humano. Dessa vez, eu estava preparado, pronto para aquele estágio, e me sentia confiante...chega de fracassar.

Caminhando, senti a gota descendo, ignorei o fato. Sabia que as palpitações seriam as próximas sensações e também não me concentrei nisso. Eu estava conseguindo, os passos ainda estavam confiantes... mesmo com uma ligeira tremida no joelho, procurei não vacilar e continuei andando.


Parei em sua frente.

Olhei seus olhos, e com todo o sentimento que inundava meu coração naquele momento eu disse:

- Ainda tem café?










Abraço a todos.

domingo, 8 de janeiro de 2012

A Pizza Portuguesa e o Fim do Mundo


Voltando do estágio, paro na banca de jornal e vejo a notícia: “Coréia do Norte ataca EUA com Ogiva nuclear”. Ligo para alguns colegas soldados e pergunto se é verdade, eles não respondem. Dois dias depois os mercados financeiros entram em um colapso e as bolsas caem em todos os países. Os governantes pedem calma, lugares que já eram precários, entram em estado de calamidade pública.


Os EUA, em resposta, decretam guerra a Coréia.  Logo Haeju- P'yŏngyang e Manpo são atingidas por bombas e varridas do país, em conseqüência a ONU se reúne, e dois blocos se dividem entre aliados e inimigos. Convocações começam no Brasil.

Na América latina, mercados e lojas começam a ser saqueados, a crise no pagamento dos funcionários públicos deixa o Chile sem Luz. A Europa se prepara para um ataque em massa, e o Irã declara que também pode usar suas ogivas nucleares se necessário.

Em nova York morrem três milhões de pessoas, vítimas de envenenamento. Um atentado da AL Qaeda, que aproveitava a fragilidade americana. Empresas que tinham investimentos na bolsa de valores decretam falência e multiplica-se o numero de desempregados no país.

Aliados começam a ser atacados com bombas, o Irá declara apoio a Coréia do Norte, e a Coréia do Sul é dizimada em dois ataques. As pessoas começam a fugir para montanhas e encostas, as cidades começam a ficar abandonadas. Aeroportos e portos são destruídos, qualquer tipo de comercio ou navegação fica obstruído. As casas começam a ser invadidas, não só no Brasil, mas em todos os lugares do mundo. Estupros e violência não conseguem mais ser registrados.

Pego o pessoal de casa, saímos de São Paulo e subimos para Minas, a Casa do tio Alberto é bem no meio do mato, logo a melhor solução para minha namorada e irmãs. Pego alguns cachorros e coloco no sitio. Aproveitando um saque a um supermercado de Belo Horizonte eu e meu primo pegamos mantimentos. Chegando a casa, começamos a cavar... Faríamos um bunker em baixo do solo do sitio.

As emissoras de tv começam a ser destruídas, ouvimos noticias de São Paulo por uma rádio pirata. As capitais brasileiras estão em caos, e no mundo algumas já não existem. Suicídios em massa no Japão e Tailândia assustam o resto da população.

Saímos mais uma vez, deixamos nosso tio armado no sitio, e as meninas escondidas no bunker, teríamos de juntar o máximo de alimento possível. Conseguimos alguns frangos de uma fazenda abandonada próxima, pegamos alguns litros de água e voltamos. Ficamos ali durante duas semanas.

Sabíamos que seria impossível viver naquele local durante muito tempo, mas o clima não era o ideal para viagens. O presidente dos EUA é assassinado. As estradas são tomadas por selvagens, que matam os pequenos grupos que se formam para proteger as pessoas que entram em conflito com o exército. Milhões de pessoas morrem no país.

Olhamos o morro e vemos uma multidão subindo a encosta, com facas e martelos em mãos,quando notei que vinham em direção ao sítio,começo a distribuir armas entre meus parentes, e me desespero. 

Quando o primeiro pula o cercado, dou-lhe um tiro na boca, e depois outro... eles se afastam. Logo alguém com uma tocha incendeia uma parte da casa. Digo para alguns primos descerem, que ficaria ali com a arma até todo mundo correr, mas algo me chama a atenção. Uma coisa imensa cai a uns quatro quilômetros dali.

 Vejo um fogo meio acinzentado cobrir a região e alguns cachorros e pessoas sendo desintegrados. Os caras que invadiram o sítio começam a correr, mas não adiantava. A luz chegava muito rápido, fechei meus olhos e senti um calor insuportável. Olhei para trás, mas...



Acordo ofegante. Levanto tomo um copo de água. A gripe ainda não tinha passado, eu estava encharcado de suor. Olho para fora e está um dia lindo de Sol. A vizinha chata com o mesmo cd do Michél Teló. Nada tinha mudado.

Fiquei pensando que realmente uma série de fatores em cadeia poderia destruir o planeta, e ao olhar aquele dia tão lindo, pensei em quanta coisa não valorizamos como família, amigos, natureza. Vida.

Mais de todos os pensamentos ali, uma precaução que deveria sempre tomar: Nunca mais comer pizza portuguesa antes de dormir.

Nunca.








sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

A Parábola da Batalha Espiritual



Dois de Janeiro era só mais um dia na Mallone e Associados. Ninguém queria trabalhar um dia depois do ano novo, mas devido a um e-mail que todos receberam na véspera de natal, os funcionários compareceram em peso.


A mensagem dizia que uma noticia importante seria dada, e que todos estivessem presentes. No ano passado, três pessoas do escritório foram promovidas nesta época, e a expectativa era grande com a saída de alguns funcionários. O boato era que existia apenas uma vaga.


Eram em 14 auxiliares, todos ex estagiários, esperando sua oportunidade. Ninguém ousou faltar. O silêncio reinava, todos apreensivos e preocupados, pois sabiam que aquele dia, poderia ser decisivo em suas carreiras.


Apesar de a maioria não saber realmente se alguém seria promovido, todo escritório tem suas indicações, e apenas seis, estavam cotados para alguma possível promoção.


Glória dos Anjos, evangélica ardorosa, trouxe a bíblia nesse dia. Em horários alternados fazia suas orações. Colou o Salmo 91 atrás do computador, para que espantasse um possível mal, que em sua opinião, mais precisamente vinha de Vênus, uma colega que sentava logo a sua frente. Naquele dia, um bom dia (seco), e uma dúvida sobre troca de notas, foi o máximo que conversaram.


Venus era praticante de Wicca e Glória abominava tais práticas. Naquele dia, jogou poções em volta de sua mesa, colocou uma árvore de alho na frente do telefone, recitando palavras em hebraico da kaballah judaica. Sabia que na disputa de poder, Glória não teria chance. Porém ainda existia uma pessoa que em sua opinião, poderia lhe tirar a vaga, Era o Evaldo, que sentava próximo ao bebedouro. Notadamente um bruxo, porque ela conhecia quem tinha essa vocação, e somente um bruxo pode descartar outro bruxo. Isso a preocupava.


Evaldo praticava o Candomblé, e um dia antes, colocou oferendas no mar para aumentar suas chances. Acendeu um incenso no banheiro, tomou um banho de sal grosso, e segurava sua guia toda vez que Vênus o olhava. Uma coisa que irritava profundamente Evaldo era o “Daruma” feito pelo Chirriro, o colega do canto da sala, que o fitava, como se o estivesse repreendendo. Era como se aquele amuleto com cara de gato estivesse vivo, olhando para ele o tempo todo.


 Chirriro era o único budista da empresa. O Daruma É um dos mais antigos e populares amuletos do budismo. Diz à lenda que ele representa um monge que teria passado nove anos meditando sobre uma rocha - o que lhe inutilizou os braços e as pernas. Chirriro acreditava que seus antepassados lutariam para que uma das vagas fosse sua, através do poderoso talismã.


 Quem era confundido como budista, da mesma crença do Chirriro era o Cheng, dos protocolos. Que sentava próximo ao Xerox.


Cheng é Taoísta. No Taoísmo se acredita que a mudança não vem de fora para dentro, e sim de dentro para fora. Arrumou sua mesa para que o Dragão (ki) passasse sobre ela. Essa era sua mais poderosa ferramenta, o Feng Shui, ou seja, a manipulação dos objetos para o direcionamento da energia.

Olhava para Chirriro com desdém, e sabia que aquele boneco vermelho na mesa dele, só iria atrapalhar os fluidos em vez de ajudar. Interrompendo seus pensamentos, Maria de Deus colocou as pastas de cadastros em cima da mesa e desarrumou seu Feng Shui. Cheng, olhando feio, reorganizou a mesa, e voltou ao trabalho.


Maria de Deus era uma católica diferente, não se incomodou com o olhar de Cheng, sabia que a única forma de desbancar todos aqueles concorrentes, seria cantando as músicas do padre Marcelo e beijando seu crucifixo de 10 em 10 minutos. Fez uma promessa, que se ganhasse a vaga, andaria de joelhos mil metros antes da imagem de Aparecida em um dia de peregrinação. Estava confiante.


E assim naquele dia, todos se entreolhavam com desconfiança. Era como se o sucesso de um dependesse do fracasso do outro. Em intervalos de minutos, se agarravam a seus objetos de fé, e pediam para que nenhum de seus colegas profissionais passasse a sua frente. Uma verdadeira guerra espiritual era travada, e no invisível, anjos, seres mitológicos, espíritos de antepassados, orixás e todos os tipos de coisas etéreas se degladiavam a pedido de seus seguidores.


No fim do dia, o chefe chamou a todos na sala de reunião. Havia uma tensão no ar. Todos continuavam apreensivos. 


Sabiam que naquele momento seria decidido, quem era espiritualmente mais forte, então levaram em suas mãos os objetos de suas crenças, e apertaram como se fosse a última coisa que pegassem na vida. Entraram na sala, e ao olhar para o dono da empresa, ficaram atentos, ouvindo suas palavras:


- Vocês estão aqui para saber uma noticia muito ruim, e espero que entendam este nosso momento. Nossos empreendimentos e parcerias diminuíram muito no último ano, e devida algumas circunstâncias, eu e meu sócio descobrimos que estamos falídos. Quero que saibam que apesar de decretar falência, garantiremos que alguns de seus direitos básicos sejam mantidos, pelos serviços prestados com afinco, no qual a empresa agradece os anos de dedicação e trabalho.


Eu sinto muito ter de dizer isto, boa sorte a todos na procura de outro emprego... Estão dispensados.


Nesse momento, todos não se olhavam mais com desconfiança, mas sim com um aperto enorme no coração. Ali no meio do escritório alguns começaram a se abraçar e chorar, e todos se confortaram. Alguns tinham anos trabalhando ali. Naquele momento não importava mais quem era quem, e quem era o que, e sim a dor que os unia naquelas horas de abatimento. Todos os anos, empresas vão à falência, mas ninguém esperava que a Mallone fosse uma delas.


 Duas semanas mais tarde, as mesas limpas não deixavam sequer rastro, de que ali, naquele local, fora travado a maior batalha espiritual daquele ano. Todos saíram derrotados. Não existia uma força superior entre as crenças, e apesar daquele momento triste, entenderam, e levariam para sua próxima empreitada profissional o ensinamento que torcer para que todo mundo seja feliz é a melhor maneira de cultivar a sua fé.


Católicos contra protestantes, judeus contra islâmicos, não importa qual a religião ou conflito, mais importante que uma promoção no emprego, são as vidas humanas que são perdidas em vários lugares do mundo, em favor do preconceito e do fanatismo. Nesse ano que agora chegou, que todas as pessoas que entendam o amor, façam ele valer, esquecendo as diferenças e cultivando o que existe de bom em cada coração.


 Que todas as nossas batalhas espirituais tenham um só intuito... construir um ambiente de paz.


“Duas coisas são infinitas: o universo e a estupidez humana. Mas, no que respeita ao universo, ainda não adquiri a certeza absoluta.”

Albert Einstein

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

A Ridícula árvore de Natal


Hoje passando pelo centro de Osasco, vi uma linda decoração natalina, dessas de encher os olhos, na praça da prefeitura municipal. Era interessante ver como as crianças que estavam por ali olhavam para aquilo como se fosse a coisa mais espetacular do planeta. Aqueles olhares brilhantes, me levaram a um passado muito distante, onde também era mês de Dezembro.


Morando com três irmãos e minha avó, dois anos após a morte dos meus pais, as condições não eram das melhores. Mesmo assim, minha velha era uma guerreira e nunca faltou nada para comer. Porém, como dizem os titãs, a gente não quer só comida, e acabamos tendo alguns problemas como a falta de roupas, brinquedos e medicamentos, as vezes quando necessário.


Conversei com a velha sobre a possibilidade de uma árvore. Disse que não queria ganhar nada além dela, mas minha velhinha triste, comentou que não teria condições de dar algum presente, quanto mais montar uma árvore de natal. Aquilo me derrubou. 


Mais tarde, cai na real, que aquilo tinha derrubado ela também. Talvez de um jeito pior.


Imagine uma senhora de 54 anos cuidando de quatro netos órfãos com aposentadoria comum por idade. Não precisei de maturidade para entender que ela falava a verdade, mas aquilo não era suficiente na minha cabeça. Chorei escondido. Escondido, porque meninos não choram. Principalmente os orfãos.


 Hoje entendo as jogadas do marketing e da publicidade, e de como é construído um sonho na mente das crianças. Não ter uma árvore de natal para mim, uma criança de nove anos naquela época, era uma coisa insuportável.


Fui então a um terreno baldio perto da minha casa, a ideia era tentar achar alguma coisa que se parecesse com uma árvore decente, para decorar nossa sala cozinha e banheiro (Era uma casa simples de três cômodos). Fiquei horas procurando até que achei uma coisa extraordinária: um pedaço de pinheiro, dos grandes, que bem remodelado poderia resolver o meu problema. 


Peguei o pedaço e levei a casa de uma vizinha japonesa jardineira chamada Massaki. Ela me deu uma lata de óleo, daquelas gigantes que não vendem mais hoje, mas antes, porém, decorou os lados com um papel crepom, e sorriu antes que eu fosse embora. Depois daquele dia nunca mais lutei contra os espinhos assassinos da vizinha japonesa.


Pedi para alguns amigos se poderiam me dar algumas das bolas laminadas que colocavam nas árvores, e de amigo em amigo, consegui trinta e seis de várias cores e tamanhos.


Para fechar com chave de ouro, entrei na casa da senhora Maria Conceição, uma velha chata que furava todas as bolas de meninos que jogavam na rua de cima, incluindo uma minha. Roubei o pisca- pisca da entrada da casa dela. Na minha cabeça, ela me devia pela minha bola, e não fiz nada de errado. Quem não concordar com meu pensamento, tenho a melhor das justificativas. Eu era uma criança. Ponto final.


Juntamos toda a galera e começamos a lavar a tal árvore. Pintamos com o guaxe verde da minha vizinha mais feinha as partes secas, e no final do processo, tínhamos uma legítima Frankenstein das arvores de natal. Meio ridícula para quem tem uma comum, dessas compradas, porém a mais linda das árvores para mim e meus amigos.


Quando cheguei em casa e meus irmãos a viram , seus corações bateram tão forte que por um momento...eu podia ouvir. Minha avó sorriu com aquele famoso olhar (O que será que esse peste aprontou de novo?) mas não me disse nada. Naquele natal ganhamos muitas coisas dos parentes distantes, e parecia que a mágica tinha chegado até mim, era o ano de 2001.


Hoje na minha casa tem uma árvore bem legal, com uma estrela bem grande na ponta, minha filha e meus sobrinhos recebem os presentes do dia 25, embaixo dela. Toda vez que chegamos na época de natal, me vêem essas recordações e sempre me pergunto se muitas crianças do bairro ainda procuram árvores em terrenos baldios.



Já parou para pensar que na sua rua, não só na África ou no Sudão, nem na Palestina, existem pessoas privadas do direito de sonhar? 


Você ajudou alguém do seu bairro esse ano?


Se sim. Obrigado.


Daqui a vinte um anos, alguém vai lembrar de você...eu juro!








Dedico este texto a Ana Cecília Romeu e a meu amigo André Mansim...obrigado por pedir para publicar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

O formigueiro é humano

Outro dia uma senhora desabafou na fila de embarque do trem, sentido Conrinthians-Itaquera: “Esse metrô parece um formigueiro”.

  Para a linguagem popular, “formigueiro humano” é um lugar-comum; para seus milhões de usuários, o metrô de São Paulo é um lugar comum. Para mim, metrô e formigueiro têm mais em comum do que se pensa.

Alguns dias depois desse evento, parei para observar o vai-e-vem na estação Sé. Estava debruçado sobre o parapeito de concreto que circula o vão central. O sol da tarde se pusera; baforadas de vento desciam as escadarias e atravessavam as catracas assaltando os mal-agasalhados. Os radares descreviam uma sexta-feira de trânsito caótico e os termômetros anunciavam uma noite fria. Mas lá embaixo, nos vagões lotados, não havia espaço para o frio. Era horário de pico no formigueiro humano.

Todos os dias, 3,4 milhões de pessoas entram e saem dos vagões do metrô de São Paulo. São passageiros que correm e esbarram uns nos outros. Alguns deles abrem caminho na multidão a cotoveladas e precipitam-se para portas prestes a fechar. Crianças, mãos dadas aos pais, cambaleiam em meio à correnteza de pernas; outros, muito idosos, caminham encurvados na companhia de suas bengalas; alguns, em dupla, combatem o frio se amassando próximos a pilastras onde se lê o aviso: “área de embarque exclusivo para idosos”. Pela organização ou pela desordem: o formigueiro é humano.

Até o criativo Franz Kafka ficaria boquiaberto se presenciasse a metamorfose coletiva do metrô paulista. A certa altura da reflexão, lembrei-me do velho Bertold Brecht e seu clássico poema, “Se os tubarões fossem homens”. Então surgiu a dúvida inevitável: e se as formigas fossem homens?

Se as formigas fossem homens, cavariam imensos túneis, semelhantes aos primitivos formigueiros. A esses túneis dariam o nome de metrô. O metrô seria um importante meio de transporte para as formigas-estudantes, utilizado por algumas formigas-executivas, mas principalmente pelas formigas-operárias.

Se as formigas fossem homens, a tirania matriarcal das formigas-rainha estaria ameaçada. Claro que, por um princípio democrático, alguma delas teria que mandar nas demais. Caberia a essa formiga-governadora determinar quando é a hora de ampliar as linhas de metrô, embora se reconheça que formigas com vocação política pouco o utilizem.

Num gesto de civilidade, possível somente aos homens, as formigas aceitariam educadamente as condições precárias do metrô, apesar das disputas férreas travadas para ocupar os raros assentos vazios (nesse caso, vale até pisotear as patas traseiras de alguma semelhante). Afinal, isso seria compreensível, pois as formigas-operárias, famosas por sua força sobre-humana, carregam bolsas e mochilas pesadíssimas - como as que já se veem pelas estações pesando em ombros humanos.

Se as formigas fossem homens, enfim, raciocinariam. Portanto, teriam sentimentos os pequenos insetos. Algumas formigas, conscientes da própria miséria, fariam do metrô seu sepulcro, lançando-se desesperadas aos trilhos. Por questões de conveniência, algo tipicamente humano, uma voz soaria pelos alto-falantes dos vagões:

- “Paramos para retirada de objeto da linha”.



Um texto de Renan Xavier.
Ilustração : Novais